segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A posse do ontem



















Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que vêem. Meu pai morreu e está sempre a meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, eu o faço, dizem-me, com sua voz. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ilíon se foi, mas Ilíon perdura no hexâmetro que a pranteia. Israel se foi quando era uma antiga nostalgia – todo poema, como o tempo, é uma elegia. São nossas as mulheres que nos deixaram, não mais sujeitos à véspera, que é angústia, e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.

[Jorge Luis Borges]

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