domingo, 29 de abril de 2012

Vandalismo















Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

[Augusto dos Anjos]

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Jangada de Pedra - José Saramago



Acabei de ler. Listei alguns trechos.

"Se um dia tiveres um filho, ele morrerá porque tu nasceste, desse crime ninguém te absolverá, as mãos que fazem e tecem são as mesmas que desfazem e destecem, o certo gera o errado, o errado produz o certo, Fraca consolação para um aflito, Não há consolação, amigo triste, o homem é um animal inconsolável." (pag. 69)

"O homem é um ser inteligente, sem dúvida, mas não tanto quanto seria desejável, e esta é uma verificação e confissão de humildade que sempre deverá começar por nós próprios, como da caridade bem compreendida se diz, antes que no-lo atirem à cara." (pag. 101)

"Decidir é dizer sim ou não, sopro da boca para fora, as dificuldades é depois que vêm, na parte prática, como diz a grande experiência do povo, ganha à custa de tempo e da paciência de suportá-lo, com poucas esperanças e mudanças ainda menos." (pag. 147)

"Embora pareça absurdo, acabámos por acreditar que existe uma relação qualquer entre o que nos aconteceu e a separação de Espanha e Portugal da Europa, deve ter ouvido falar, Ouvi, mas aqui nestes sítios não se deu por nada, se saltarmos os montes e descermos à costa é sempre o mesmo mar, A televisão mostrou, Não  tenho televisão, À rádio tem dado notícias, As notícias são palavras, nunca se chega bem a saber se as palavras são notícias." (pag.179)

"Há tão poucos dias e parece terem-se passado séculos, reflexão que nada tem de original, se alguma o tem, mas irresistível, como tantas outras vulgaridades." (pag.242)

"Não falta por aí, nunca faltou, quem afirme que os poetas, verdadeiramente, não são indispensáveis, e eu pergunto o que seria de todos nós se não viesse a poesia ajudar-nos a compreender quão pouca claridade têm as coisas a que chamamos claras." (pag. 304)