sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Poema



















Se morro
o universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                  se apago a lâmpada:
os sapatos-da-ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó-
dos-andes,
             bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
           morrem comigo.

Ou não:
          o sol voltará a marcar
          este mesmo ponto do assoalho
          onde esteve meu pé;
                                        deste quarto
          ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
            uma nova cidade
            surgirá de dentro desta
            como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

[Ferreira Gullar, in Dentro da Noite Veloz]

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