domingo, 26 de fevereiro de 2012

Do respeito humano


















Conviver toda a existência com alguém sem nunca
lhe dar a entender que ele perdeu a anos uma perna
ou que perdeu um dia a cabeça.

[Mario Quintana, in Caderno H]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Rio















Por esta grande usina
olhando com cuidado vou,
que esta foi a usina
que toda esta mata dominou.
Numa usina se aprende
como a carne mastiga o osso,
se aprende como mãos
amassam a pedra, o caroço;
numa usina se assiste
à vitória, de dor maior,
de brando sobre o duro,
do grão amassando a mó;
numa usina se assiste
à vitória maior e pior,
que é a da pedra dura
furada pelo suor.

Para trás vai ficando
a triste povoação daquela usina
onde vivem os dentes
com que a fábrica mastiga.
Dentes frágeis, de carne,
que não duram mais de um dia;
dentes são que se comem
ao mastigar para a Companhia;
de gente que, cada ano,
o tempo da safra é que vive,
que, na braça da vida,
tem marcado curto o limite.
Vi homens de bagaço
enquanto por ali discorria;
vi homens de bagaço
que morte úmida embebia.

E vi todas as mortes
em que esta gente vivia:
vi a morte por crime,
pingando a hora da vigia;
a morte por desastre,
com seus gumes tão precisos,
como um braço se corta,
cortar bem rente muita vida;
via morte por febre,
precedida de seu assovio,
consumir toda a carne
com um fogo que por dentro é frio.
Ali não é a morte
de planta que seca, ou de rio:
é morte que apodrece,
ali natural, que visto.

[João Cabral de Melo Neto, trecho do poema O Rio, 1953]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Poema



















Se morro
o universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                  se apago a lâmpada:
os sapatos-da-ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó-
dos-andes,
             bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
           morrem comigo.

Ou não:
          o sol voltará a marcar
          este mesmo ponto do assoalho
          onde esteve meu pé;
                                        deste quarto
          ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
            uma nova cidade
            surgirá de dentro desta
            como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

[Ferreira Gullar, in Dentro da Noite Veloz]

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Heráclito



















"De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
 Talvez o manancial esteja em mim.
 Talvez de minha sombra
 surjam, fatais e ilusórios, os dias."


[Jorge Luis Borges, trecho do poema heráclito de Elogio da Sombra, 1969]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Os dançarinos do arame

   

















   Dentro das atuais coordenadas do espaço e do 
tempo, aqui nos vamos equilibrando sobre este fio 
de vida... 
   Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de
esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?

[Mario Quintana, Caderno H]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Sobrevivente
















- Meu Deus! - Disse uma vez o meu velho e querido amigo, ao ler os convites de enterro no jornal -, eu não conheço mais nem os defuntos!

[Mario Quintana, Caderno H]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Deixei


















Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada se explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

[Fernando Pessoa]