domingo, 16 de dezembro de 2012

Pirandello I















A paisagem parece um cenário de teatro
É uma paisagem arrumada
Os homens passam tranquilamente
com a consciência de que estão representando
Todos passam indiferentes
como se fosse a vida ela mesma
O cachorro que atravessa a rua
e que deveria ser faminto
tem um ar calmo de sesta.
A vida ela própria não parece representada:
as nuvens correm no céu
mas eu estou certo que a paisagem é artificial
eu conheço a ordem do diretor:
- Não olhem para a objetiva!
e sei que os homens são grandes artistas
o cachorro é um grande artista.

[João Cabral de Melo Neto]

O Astronauta

sábado, 8 de dezembro de 2012

Os Manequins




















Os sonhos cobrem-se de pó.
Um último esforço de concentração
Tenho no meu quarto manequins corcundas
onde me reproduzo
e me contemplo em silêncio.

[João Cabral de Melo Neto]



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Estudos Para Uma Bailadora Andaluza





Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.

Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;
gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.

Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,
gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.

Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,
de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,
que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.

(...)

Ela não pisa na terra
como quem a propicia
para que lhe seja leve
quando se enterre, num dia.

Ela a trata com a dura
e muscular energia
do camponês que cavando
sabe que a terra amacia.

Do camponês de quem tem
sotaque andaluz caipira
e o tornozelo robusto
que mais se planta que pisa.

Assim, em vez dessa ave
assexuada e mofina,
coisa a que parece sempre
aspirar a bailarina,
esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.

Árvore que estima a terra
de que se sabe família
e por isso trata a terra
com tanta dureza íntima.

Mais: que ao se saber da terra
não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas
fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra
e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,
para vencer quem duvida.

[João Cabral de Melo Neto]



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A posse do ontem



















Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que vêem. Meu pai morreu e está sempre a meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, eu o faço, dizem-me, com sua voz. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ilíon se foi, mas Ilíon perdura no hexâmetro que a pranteia. Israel se foi quando era uma antiga nostalgia – todo poema, como o tempo, é uma elegia. São nossas as mulheres que nos deixaram, não mais sujeitos à véspera, que é angústia, e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.

[Jorge Luis Borges]

sábado, 20 de outubro de 2012

A Casa de Astérion




















E a rainha deu à luz um filho
Que se chamou Astérion.

APOLODORO: Biblioteca, III, I


Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei a seu devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de minha casa, mas também é verdade que suas portas (cujo número é infinito) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas feminis nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Assim, encontrará uma casa como não há outra na face da Terra. (Mentem os que declaram que no Egito existe uma parecida). Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra história ridícula é que eu, Astérion, sou um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não há uma fechadura? Além disso, num entardecer pisei a rua; se antes da noite voltei, fiz isso pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e achatados, como a mão aberta. Já havia se posto o sol, mas o desvalido choro de uma criança e as toscas preces da grei disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, prosternava-se; alguns trepavam no estilóbata do templo dos Machados, outros juntavam pedras. Algum, creio, ocultou-se sob o mar. Não em vão foi uma rainha minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modéstia o queira.

O Fato é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escritura. As maçantes e triviais minúcias não têm espaço em meu espírito, que está capacitado para o grande; jamais reti a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. Às vezes o deploro, porque as noites e os dias são longos.

Claro que não me faltam distrações. Igual ao carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até rolar ao chão, nauseado. Escondo-me à sombra de uma cisterna ou à volta de um corredor e finjo que me procuram. Existem terraços de onde me deixo cair até me ensanguentar  A qualquer hora posso fingir que estou adormecido, com os olhos fechados e a respiração poderosa. (Às vezes durmo realmente, às vezes está mudada a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de tantas brincadeiras, a que prefiro é a do outro Astérion. Finjo que vem visitar-me e que lhe mostro a casa. Com grandes reverências digo-lhe: Agora voltamos à encruzilhada anterior ou Agora desembocamos em outro pátio ou Bem dizia eu que te agradaria o canalete ou Agora verás uma cisterna que se encheu de areia ou Já verás como o porão se bifurca. Às vezes me confundo e nos rimos agradavelmente os dois.

Não só tenho imaginado esses jogos; também tenho meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, uma manjedoura; são quatorze [são infinitos] as manjedouras, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Contudo, por força de esgotar pátios com uma cisterna e poeirentas galerias de pedra cinza, alcancei a rua e vi o templo dos Machados e o mar. Não entendi isso até que uma visão da noite me revelou que também são quatorze [são infinitos] os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, quatorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma só vez: acima, o intrincado Sol; abaixo, Astérion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o Sol e a enorme casa, mas já não me recordo.
A cada nove anos entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo mal. Ouço seus passos e sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente a procurá-los. A cerimônia dura poucos minutos. Um após outro caem sem que eu ensanguente as mãos. Onde caíram ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem são, mas sei que um deles profetizou, na hora de sua morte, que algum dia chegaria o meu redentor. Desde então não me dói a solidão, porque sei que vive meu redentor e no fim se levantará sobre o pó. Se meu ouvido alcançasse todos os rumores do mundo, eu perceberia seus passos. Tomara que me leve a um lugar com menos galerias e menos portas. Como será meu redentor? pergunto-me. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com rosto de homem? Ou será como eu?

O sol da manhã reverberou na espada de bronze. Já não havia nenhum vestígio de sangue.
– Acreditarás, Ariadne? – disse Teseu –. O minotauro mal se defendeu.


[Jorge Luis Borges]

domingo, 30 de setembro de 2012

Sobre ciência e criatividade

"O cientista criativo tem muito em comum com o artista e o poeta. O pensamento lógico e a capacidade analítica são atributos necessários de um cientista, mas estão longe de ser suficientes para o trabalho criativo. Na ciência, as percepções que levam aos grandes avanços operam no nível do subconsciente. A ciência morreria se todos os cientistas fossem simples operadores de instrumentos e se não houvesse entre eles os sonhadores."

[Leo Szilard]

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Reflexões sobre o problema da segurança pública no Brasil


Algumas reflexões, principalmente em época de eleições, sempre vêm à tona. Essa eu resolvi registrar aqui. Existem pessoas que acreditam mesmo que a solução do problema de segurança pública no Brasil passa pelo fortalecimento do mecanismo repressor do Estado, materializado na forma da polícia, principalmente. Ora, essas pessoas não são poucas e votam. Por isso a "questão da segurança" é figura de linguagem presente na maioria dos discursos de candidatos políticos em toda eleição. Mas, pense um pouco. Ou eu estou redondamente enganado, ou não existe, pelo menos no que se vê na mídia, preocupação em entender, ou mesmo mostrar, as causas desse problema. E isso é impressionante porque o raciocínio é muito mais que óbvio. Quantos menores de idade que frequentam as melhores escolas particulares são aliciados pelo tráfico de drogas? Qual é o percentual de assaltantes que são oriundos dos bairros mais nobres, onde as pessoas possuem alta renda? Na faixa de idade entre adolescência e juventude, quantos morrem vítimas de assassinato nos condomínios mais ricos? Eu não sei o valor dessa estatística, mas eu (e você) posso (podemos) afirmar com certeza absoluta que é ínfima, quase nula. Então chegamos a uma conclusão que chega a ser ridícula de tão simples: o problema da segurança se origina do abismo social que existe nesse país. 
Quem quiser me contestar que me convença que uma criança que nasce numa favela e que no futuro vai se tornar um delinquente tem total responsabilidade pelo seu comportamento. Logo ao nascer ela já decidiu que iria ser "soldado do tráfico"? Vamos a outro exercício de raciocínio. Uma criança que nasce nessas condições já carrega o peso da discriminação desde cedo. Ela vê o mundo a tratar como inferior, até como uma ameaça. O Estado a nega educação, saúde, moradia digna, lazer.  Ao longo do tempo e da convivência com essa realidade, que é brutal, que caminhos ela vai seguir? De passagem podemos relembrar que a infância é o estágio da vida que tem a maior influência na formação do caráter e da personalidade do indivíduo. Dado esse problema, é plausível que a solução mais eficaz seja o fortalecimento dos órgãos repressores do Estado? Para mim isso é um dos maiores absurdos dessa época recente do Brasil. 
Eu ainda questiono: e por que não o Estado ser punido? Por que não a cada acréscimo nas estatísticas de violência numa dada localidade fosse o Estado obrigado a investir um percentual do PIB em educação, saúde, etc na dita localidade. Por que não? E se o mandado dos políticos eleitos por cada localidade fosse dependente dos índices sociais da região? Por exemplo, uma piora dos índices sociais (com respeito a atendimento nos hospitais, qualidade das escolas, etc) levasse a uma cassação de mandato? Já passou da hora de mudar o foco de como isso é discutido nessa sociedade.

domingo, 12 de agosto de 2012

Pedra Bonita



"Estava aborrecido do mundo. Viera andando à toa. Até ali. Andando como se não fosse para parte nenhuma. Para ele o mundo era igual, tudo igual, tudo triste, tudo acabado. E pegava na viola e tocava. Era triste o que ele tocava. Os versos eram tristes, as mágoas imensas." (pag. 68)

"A escuridão enchia a noite, mas a madrugada não tardou a chegar. Aquela casa no meio do deserto. Um curral de pedra, pertinho, e a caatinga cercando. A caatinga sem fim, igual, léguas e léguas. E aquela casa, e aquele povo, vivendo sem medo, sem desgosto." (pag. 85)

[José Lins do Rego, in Pedra Bonita]

terça-feira, 24 de julho de 2012

Reflexão


















Está fora
de meu alcance
o meu fim

Sei só até
onde sou

contemporâneo
de mim

[Ferreira Gullar]

sexta-feira, 13 de julho de 2012

IV. Discurso do Capibaribe (Trecho do poema "O Cão Sem Plumas")




IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

[João Cabral de Melo Neto]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

No Corpo



















De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

[Ferreira Gullar]

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vou-me embora pra Pasárgada

"E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada."


domingo, 3 de junho de 2012

Sou


















Sou o que sabe que não é menos vão
que o vão observador que no espelho
de silêncio e cristal segue o reflexo
ou o corpo (dá no mesmo) do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
que não há outra vingança que não o esquecimento
nem outro perdão. Um deus concedeu
ao ódio humano esta curiosa chave.
Sou o que, apesar dos ilustres modos
de errar, não decifrou o labirinto,
singular e plural, árduo e distinto,
do tempo, que é um e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi espada
na guerra. Sou eco, esquecimento, nada.

[Jorge Luis Borges]

terça-feira, 22 de maio de 2012

Zé Lins



"Ai o cargueiro começou a pinicar na viola. E saiu-se com a sua toada. Começou em voz baixa, como se estivesse se acostumando com as dificuldades. Depois a voz cresceu e encheu a noite de plangências. Soprava um vento nos galhos das oiticicas, e no curral o gado acordado como se fosse de dia."

[José Lins do Rêgo, in Pedra Bonita]

domingo, 13 de maio de 2012

O Fim das Coisas














Pode o homem bruto, adstricto à ciência grave,
Arrancar, num triunfo surpreendente,
Das profundezas do Subconsciente
O milagre estupendo da aeronave!

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,
Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente
De perscrutar o íntimo do orbe, invente
A limpada aflogística de Davy!

Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio ...

E quando, ao cabo do último milênio,
A humanidade vai pesar seu gênio
Encontra o mundo, que ela encheu, vazio!

[Augusto dos Anjos]

domingo, 29 de abril de 2012

Vandalismo















Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

[Augusto dos Anjos]

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Jangada de Pedra - José Saramago



Acabei de ler. Listei alguns trechos.

"Se um dia tiveres um filho, ele morrerá porque tu nasceste, desse crime ninguém te absolverá, as mãos que fazem e tecem são as mesmas que desfazem e destecem, o certo gera o errado, o errado produz o certo, Fraca consolação para um aflito, Não há consolação, amigo triste, o homem é um animal inconsolável." (pag. 69)

"O homem é um ser inteligente, sem dúvida, mas não tanto quanto seria desejável, e esta é uma verificação e confissão de humildade que sempre deverá começar por nós próprios, como da caridade bem compreendida se diz, antes que no-lo atirem à cara." (pag. 101)

"Decidir é dizer sim ou não, sopro da boca para fora, as dificuldades é depois que vêm, na parte prática, como diz a grande experiência do povo, ganha à custa de tempo e da paciência de suportá-lo, com poucas esperanças e mudanças ainda menos." (pag. 147)

"Embora pareça absurdo, acabámos por acreditar que existe uma relação qualquer entre o que nos aconteceu e a separação de Espanha e Portugal da Europa, deve ter ouvido falar, Ouvi, mas aqui nestes sítios não se deu por nada, se saltarmos os montes e descermos à costa é sempre o mesmo mar, A televisão mostrou, Não  tenho televisão, À rádio tem dado notícias, As notícias são palavras, nunca se chega bem a saber se as palavras são notícias." (pag.179)

"Há tão poucos dias e parece terem-se passado séculos, reflexão que nada tem de original, se alguma o tem, mas irresistível, como tantas outras vulgaridades." (pag.242)

"Não falta por aí, nunca faltou, quem afirme que os poetas, verdadeiramente, não são indispensáveis, e eu pergunto o que seria de todos nós se não viesse a poesia ajudar-nos a compreender quão pouca claridade têm as coisas a que chamamos claras." (pag. 304)

domingo, 11 de março de 2012

Pedagogia da Autonomia



















"Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente, aos vinte e cinco anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si é processo, é vir a ser."

[Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia]

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Do respeito humano


















Conviver toda a existência com alguém sem nunca
lhe dar a entender que ele perdeu a anos uma perna
ou que perdeu um dia a cabeça.

[Mario Quintana, in Caderno H]

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Rio















Por esta grande usina
olhando com cuidado vou,
que esta foi a usina
que toda esta mata dominou.
Numa usina se aprende
como a carne mastiga o osso,
se aprende como mãos
amassam a pedra, o caroço;
numa usina se assiste
à vitória, de dor maior,
de brando sobre o duro,
do grão amassando a mó;
numa usina se assiste
à vitória maior e pior,
que é a da pedra dura
furada pelo suor.

Para trás vai ficando
a triste povoação daquela usina
onde vivem os dentes
com que a fábrica mastiga.
Dentes frágeis, de carne,
que não duram mais de um dia;
dentes são que se comem
ao mastigar para a Companhia;
de gente que, cada ano,
o tempo da safra é que vive,
que, na braça da vida,
tem marcado curto o limite.
Vi homens de bagaço
enquanto por ali discorria;
vi homens de bagaço
que morte úmida embebia.

E vi todas as mortes
em que esta gente vivia:
vi a morte por crime,
pingando a hora da vigia;
a morte por desastre,
com seus gumes tão precisos,
como um braço se corta,
cortar bem rente muita vida;
via morte por febre,
precedida de seu assovio,
consumir toda a carne
com um fogo que por dentro é frio.
Ali não é a morte
de planta que seca, ou de rio:
é morte que apodrece,
ali natural, que visto.

[João Cabral de Melo Neto, trecho do poema O Rio, 1953]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Poema



















Se morro
o universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                  se apago a lâmpada:
os sapatos-da-ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó-
dos-andes,
             bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
           morrem comigo.

Ou não:
          o sol voltará a marcar
          este mesmo ponto do assoalho
          onde esteve meu pé;
                                        deste quarto
          ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
            uma nova cidade
            surgirá de dentro desta
            como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

[Ferreira Gullar, in Dentro da Noite Veloz]

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Heráclito



















"De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
 Talvez o manancial esteja em mim.
 Talvez de minha sombra
 surjam, fatais e ilusórios, os dias."


[Jorge Luis Borges, trecho do poema heráclito de Elogio da Sombra, 1969]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Os dançarinos do arame

   

















   Dentro das atuais coordenadas do espaço e do 
tempo, aqui nos vamos equilibrando sobre este fio 
de vida... 
   Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de
esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?

[Mario Quintana, Caderno H]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Sobrevivente
















- Meu Deus! - Disse uma vez o meu velho e querido amigo, ao ler os convites de enterro no jornal -, eu não conheço mais nem os defuntos!

[Mario Quintana, Caderno H]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Deixei


















Deixei de ser aquele que esperava,
Isto é, deixei de ser quem nunca fui...
Entre onda e onda a onda não se cava,
E tudo, em ser conjunto, dura e flui.

A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua fúria brava
É que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que não existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada se explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

[Fernando Pessoa]