terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Elegia




















Tudo é agora. Abramowicz, o singular sabor da morte, a ninguém negado, que me será oferecido nesta casa ou do outro lado do mar, às margens do teu Ródano, que flui fatalmente como se fosse esse outro e mais antigo Ródano, o Tempo. Tua será também a certeza de que o Tempo se esquece de seus passados e de que nada é irreparável, ou a contrária certeza de que os dias nada podem apagar, e de que não há um ato, ou um sonho, que não projete uma sombra infinita. Genebra te acreditava um homem de leis, um homem de ditames e de causas, mas em cada palavra, em cada silêncio, eras um poeta. Talvez estejas folheando neste momento os diversos livros que não escrevestes, mas que prefixavas e descartavas, e que para nós te justificam e de alguma maneira são. Durante a primeira guerra, enquanto se matavam os homens, sonhamos os dois sonhos que se chamaram Laforgue e Baudelaire. Descobrimos as coisas que descobrem todos os jovens: o ignorante amor, a ironia, o desejo de ser Raskolnikov ou o príncipe Hamlet, as palavras e os poentes. As gerações de Israel estavam em ti quando me disseste sorrindo: Je suis très fatigué. J´ai quatre mille ans. Isto ocorreu na Terra; vão é conjecturar a idade que terás no céu. Não sei se todavia és alguém, não sei se estás me ouvindo.

Buenos Aires, quatorze de janeiro de 1984

[Jorge Luis Borges]

César



















Aqui, o que deixaram os punhais.
Aqui essa pobre coisa, um homem morto
que se chamava César. Aberto;
nas crateras da carne, os metais.
Aqui o atroz, aqui a detida
máquina usada ontem para a glória,
para escrever e executar a história
e para o gozo pleno da vida.
Aqui também o outro, aquele prudente
imperador que declinou medalhas,
que comandou barcos e batalhas
e que regeu o oriente e o poente.
Aqui também o outro, o que virá
cuja grande sombra o mundo inteiro será.

[Jorge Luis Borges]

Doomsday

















Será quando a trombeta ressoe, como escreve São João o
Teólogo.
Foi em 1757, segundo o testemunho de Swedenborg.
Foi em Israel quando a loba cravou na cruz a carne de
Cristo, mas não só então.
Ocorre em cada pulsação de teu sangue.
Não há um instante que não possa ser a cratera do Inferno.
Não há um instante que não possa ser a água do Paraíso.
Não há um instante que não esteja carregado como uma arma.
Em cada instante podes ser Caim ou Sidarta, a máscara ou o
rosto.
Em cada instante pode te revelar seu amor Helena de Tróia.
Em cada instante o galo pode ter cantado três vezes.
Em cada instante a clepsidra deixa cair a última gota.

[Jorge Luis Borges]

domingo, 18 de dezembro de 2011

Autobiografia De Um Só Dia
















No Engenho do Poço não nasci:
minha mãe, na véspera de mim,

veio de lá para a Jaqueira,
que era onde, queiram ou não queiram,

os netos tinham de nascer,
nos quarto-avós, frente à maré.

Ou porque chegássemos tarde
(não porque quisesse apressar-me,

e se soubesse o que teria
de tédio à frente, abortaria)

ou porque o doutor deu-me quandos,
minha mãe no quarto-dos-santos,

nisto de santuário e capela,
lá dormiria, até que para ela,

fizessem cedo no outro dia
o quarto onde os netos nasciam.

Porém em pleno Céu de gesso,
naquela madrugada mesmo,

nascemos eu e minha morte,
contra o ritual daquela Corte

que nada de homem sabia:
que ao nascer esperneia, grita.

Parido no quarto-dos-fundos,
sem querer, nasci blasfemando,

pois são blasfêmias sangue e grito
em meio à freirice de lírios,

mesmo se explodem (gritos, sangue),
de chácara entre marés, mangues.

[João Cabral de Melo Neto]

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Uma faca só lâmina


















Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de uma lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de um homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

(...)

[João Cabral de Melo Neto]