domingo, 16 de outubro de 2011

A Escola das Facas
















O alíseo ao chegar ao Nordeste
baixa em coqueirais, canaviais;
cursando as folhas laminadas,
se afia em peixeiras, punhais.

Por isso, sobrevoada a Mata,
suas mãos, antes fêmeas, redondas,
ganham a fome e o dente da faca
com que sobrevoa outras zonas.

O coqueiro e a cana lhe ensinam,
sem pedra-mó, mas faca a faca,
como voar o Agreste e o Sertão:
mão cortante e desembainhada.

[João Cabral de Melo Neto]

domingo, 9 de outubro de 2011

Guerra
















A poesia circula livremente entre os bloqueios.
Os grandes poemas são compostos em Morse.
Sobre o espaço e o tempo abolidos
generais sonham planos definitivos
entretanto forças formas brancas
pousaram nos alto-falantes das trincheiras.

[João Cabral de Melo Neto]

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dois estudos














I

Tu és a antecipação
do último filme que assistirei.
Fazes calar os astros,
os rádios e as multidões na praça pública.
Eu te assisto imóvel e indiferente.
A cada momento tu te voltas
e lanças no meu encalço
máquinas monstruosas que envenenam reservatórios
sobre os quais ganhaste um domínio de morte.
Trazes encerradas entre os dedos
reservas formidáveis de dinamite
e de fatos diversos.

II

Tu não representas as 24 horas de um dia,
os fatos diversos,
o livro e o jornal
que leio neste momento.
Tu os completas e os transcendes.
Tu és absolutamente revolucionária e criminosa,
porque sob teu manto
e sob os pássaros de teu chapéu
desconheço a minha rua,
o meu amigo e o meu cavalo de sela.

[João Cabral de Melo Neto]