segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Profissional da Memória



Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,
imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,
para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.
Assim, foi entretecendo
entre ela, e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;
foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada .
Mas desconvivendo delas,
longe da vila e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;
já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.
A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga.
Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de uma
traz da outra sua atmosfera.

 [João Cabral de Melo Neto]

sábado, 24 de setembro de 2011

Diagnóstico


















Pouca verdade! Pouca verdade!
Tenho razão enquanto não penso...
Pouca verdade...
devagar...
Pode alguém chegar à vidraça...
Nada de emoções!...
Cautela!
Sim, se mo dessem aceitaria... Não precisas insistir,
                                                                   [aceitaria
Para quê?
Que pergunta! Aceitaria...

                                                      18/06/1930

[Fernando Pessoa, por Álvaro de Campos]