domingo, 24 de julho de 2011

O Evangelho segundo Jesus Cristo




Acabei de ler "O Evangelho segundo Jesus Cristo", de José Saramago.
Minha opinião sobre o livro: muito bom, recomendo a leitura.

Vão aí alguns trechos que achei interessantes:

“Magro, de cabelos lisos, de cabeça caída para a terra que o há-de comer, duas vezes condenado, à morte e ao inferno, este mísero despojo só pode ser o Mau Ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza.”

“Mas, essa idade é dura e de ferro, o tempo dos milagres, ou já passou, ou ainda está para chegar, além disso, milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é coisa boa, se é preciso torcer a lógica e a razão própria das coisas para torná-las melhores.”

“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.” 

“As tantas, o infante Jesus acordou, mas agora a valer, que antes mal abrira os olhos quando sua mãe o enfaixara para a viagem, e pediu alimento com sua voz de choro, única que ainda tem. Um dia, como qualquer um de nós, outras vozes virá a aprender, graças às quais saberá exprimir outras fomes e experimentar outras lágrimas.” 

“Vozes que mil vezes perguntarão, Porquê, imaginando que há uma resposta, e que mais cedo ou mais tarde acabam por calar-se, porque só o silêncio é certo.” 

“Ora, quando tal sucede, isto é, quando se tornou patente que Deus não vem nem dá sinal de chegar tão cedo, o homem não tem mais remédio que fazer-lhe as vezes e sair de sua casa para ir por ordem no mundo ofendido, a casa que é dele e o mundo que a Deus pertence.”

“(...), o carpinteiro José ficou em casa, com os seus nove filhos pequenos e a mãe deles, agarrado à bancada e à necessidade de ganhar o pão para hoje, que o dia de amanhã não se sabe a quem pertence, há quem diga que a Deus, é uma hipótese tão boa como a outra, a de não pertencer a ninguém, e tudo isso, ontem, hoje e amanhã, não serem mais do que diferentes nomes da ilusão.” 

“Deus não perdoa os pecados que manda cometer.” 

“É por demais conhecido que as exigências da obviedade cortam as asas ao pássaro inquieto da imaginação.” 

“Nenhuma salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva.”

[Fonte: O Evangelho segundo Jesus Cristo. Edição de bolso, Companhia das Letras, 2005]

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