quinta-feira, 9 de junho de 2011

Paragem Zona

Tragam-me o esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta...
Então viver amanhã, hein?...E o que se faz hoje?
Viver amanhã pode ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espetáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico - o de que já estou à espera -
Antes fosse outro...Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixá-lo passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser
                                                          [guarda-freios...

Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da
                                                                            [vida...

[Fernando Pessoa por Álvaro de Campos, 28/05/1930]

Fonte: Fernando Pessoa, Obra poética IV, Poemas de Álvaro de Campos L&PM POCKET, pag. 208.

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