sexta-feira, 25 de março de 2011

Reticências
















Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida…
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema…
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra…

[Fernando Pessoa por Álvaro de Campos]

sábado, 19 de março de 2011

Carta ao Tom 74




"É, meu amigo, só resta uma certeza:
é preciso acabar com essa tristeza,
é preciso inventar de novo o amor..."

sexta-feira, 18 de março de 2011

Estes Discos Voadores Me Preocupam Demais















Essa gente pequenina
De viagem intergaláctica
Vem saber nossa gramática
Ou mudar nossa doutrina
Beber nossa gasolina
Que já é pouca demais
Desmantelar nossos cais
Engrenar nossos motores
Esses discos voadores
Me preocupam demais

Astronaves tripuladas
Nunca dormem, nem cochilam
Essas luzes que desfilam
Pelas altas madrugadas
Será que essas armadas
Das mansões celestiais
Vêm aqui nos trazer paz
Ou aumentar nossas dores
Esses discos voadores
Me preocupam demais

Da esfera marciana
Descem discos toda hora
Fazem pequena demora
No meio da raça humana
Talvez queiram ver a grana
Das multinacionais
Que estão botando pra trás
Os nossos trabalhadores
Esses discos voadores
Me preocupam demais

Seres de outras camadas
Voam num veloz transporte
Rússia e América do Norte
Já estão preocupadas
Será que esses camaradas
Lá das bandas siderais
Vêm torcer por generais
Ou apoiar senadores
Esses discos voadores
Me preocupam demais

Dentro da ufologia
Segundo o que eu entendo
Esses discos estão querendo
Falar de democracia
Cortar a demagogia
De quem fala e nada faz
Dos sabidões atuais
Enganando os eleitores
Esses discos voadores
Me preocupam demais

[Zé Ramalho; Composição: Oliveira de Panelas]

domingo, 13 de março de 2011

Fábula de um arquiteto















A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

2.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.


[João Cabral de Melo Neto]

domingo, 6 de março de 2011

Tríade













O alívio que terá sentido César na manhã
de Farsalia, ao pensar: Hoje é a batalha! 
O alívio que terá sentido Carlos Primeiro
ao ver o amanhecer no cristal e pensar: hoje
é o dia do patíbulo, da coragem e do machado. 
O alívio que tu e eu sentiremos no instante que
precede a morte, quando a sorte nos desate
do triste costume de ser alguém e do peso
do universo.

[Jorge Luis Borges, in Os Conjurados]

Eu


















Eu, eu mesmo…
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu…
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças…
Que crianças não sei…
Eu…
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei…
Eu…
Tive um passado? Sem dúvida…
Tenho um presente? Sem dúvida…
Terei um futuro? Sem dúvida…
A vida que pare de aqui a pouco…
Mas eu, eu…
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu…

[Fernando Pessoa por Álvaro de Campos]