sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Poemas de Álvaro de Campos



Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da sua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres que morreste.
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

(1926)

[Álvaro de Campos; Fernando Pessoa]

Mar Português














Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

[Fernando Pessoa]

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Atenção, jovem do futuro...



"Atenção, jovem do futuro:

Seis de setembro de 2120, aniversário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade;Aqui fica somente a lembrança de um tristre passado de dor, sofrimento e morte.

Desculpem, eu estava sonhando quando escrevi esses acontecimentos, que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado."

[Chico Mendes]

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

I Wonder - Louis Armstrong





I wonder my little darling
Where can you be this moonlit night
Are you holding someone tight
Oh Baby, I wonder

My heart is aching, I'm a fool
To let it go on breaking
Maybe I'll awake and find that I'm mistaken
I wonder

Baby, since we're through I've been through lover's lane
But in my heart there's only pain
You went traveling, but will it last?
While I'm traveling nowhere fast, sweetheart, sweeheart

I wonder, well, well, well, little baby
If this new love dies, where will you be
Will your heart come running back to me
Baby, I wonder.

[Louis Armstrong]

domingo, 14 de novembro de 2010

The story of Schroedinger's cat (an epic poem)












May 7, 1982

Dear Cecil:

Cecil, you're my final hope
Of finding out the true Straight Dope
For I have been reading of Schroedinger's cat
But none of my cats are at all like that.
This unusual animal (so it is said)
Is simultaneously live and dead!
What I don't understand is just why he
Can't be one or other, unquestionably.
My future now hangs in between eigenstates.
In one I'm enlightened, the other I ain't.
If you understand, Cecil, then show me the way
And rescue my psyche from quantum decay.
But if this queer thing has perplexed even you,
Then I will and won't see you in Schroedinger's zoo.

— Randy F., Chicago

Cecil replies:

Schroedinger, Erwin! Professor of physics!
Wrote daring equations! Confounded his critics!
(Not bad, eh? Don't worry. This part of the verse
Starts off pretty good, but it gets a lot worse.)
Win saw that the theory that Newton'd invented
By Einstein's discov'ries had been badly dented.
What now? wailed his colleagues. Said Erwin, "Don't panic,
No grease monkey I, but a quantum mechanic.
Consider electrons. Now, these teeny articles
Are sometimes like waves, and then sometimes like particles.
If that's not confusing, the nuclear dance
Of electrons and suchlike is governed by chance!
No sweat, though--my theory permits us to judge
Where some of 'em is and the rest of 'em was."
Not everyone bought this. It threatened to wreck
The comforting linkage of cause and effect.
E'en Einstein had doubts, and so Schroedinger tried
To tell him what quantum mechanics implied.
Said Win to Al, "Brother, suppose we've a cat,
And inside a tube we have put that cat at--
Along with a solitaire deck and some Fritos,
A bottle of Night Train, a couple mosquitoes
(Or something else rhyming) and, oh, if you got 'em,
One vial prussic acid, one decaying ottom
Or atom--whatever--but when it emits,
A trigger device blasts the vial into bits
Which snuffs our poor kitty. The odds of this crime
Are 50 to 50 per hour each time.
The cylinder's sealed. The hour's passed away. Is
Our pussy still purring--or pushing up daisies?
Now, you'd say the cat either lives or it don't
But quantum mechanics is stubborn and won't.
Statistically speaking, the cat (goes the joke),
Is half a cat breathing and half a cat croaked.
To some this may seem a ridiculous split,
But quantum mechanics must answer, "Tough shit.
We may not know much, but one thing's fo' sho':
There's things in the cosmos that we cannot know.
Shine light on electrons--you'll cause them to swerve.
The act of observing disturbs the observed--
Which ruins your test. But then if there's no testing
To see if a particle's moving or resting
Why try to conjecture? Pure useless endeavor!
We know probability--certainty, never.'
The effect of this notion? I very much fear
'Twill make doubtful all things that were formerly clear.
Till soon the cat doctors will say in reports,
"We've just flipped a coin and we've learned he's a corpse."'
So saith Herr Erwin. Quoth Albert, "You're nuts.
God doesn't play dice with the universe, putz.
I'll prove it!" he said, and the Lord knows he tried--
In vain--until fin'ly he more or less died.
Win spoke at the funeral: "Listen, dear friends,
Sweet Al was my buddy. I must make amends.
Though he doubted my theory, I'll say of this saint:
Ten-to-one he's in heaven--but five bucks says he ain't."

— Cecil Adams


Fonte: http://www.straightdope.com/columns/read/113/the-story-of-schroedingers-cat-an-epic-poem

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Grilo










- Grilo, toca aí um solo de flauta.
- De flauta? Você me acha com cara de flautista?
- A flauta é um belo instrumento, não gosta?
- Troppo dolce!

[Manuel Bandeira]

A Navalha de Occam

A Navalha de Occam ou Navalha de Ockham é um princípio lógico atribuído ao lógico e frade franciscano  inglês William de Ockham (século XIV). O princípio afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do fenômeno e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria. O princípio é frequentemente designado pela expressão latina Lex Parsimoniae (Lei da Parcimônia) enunciada como:"entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" (as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade). Esta formulação é muitas vezes parafraseada como "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor". O princípio recomenda assim que se escolha a teoria explicativa que implique o menor número de premissas assumidas e o menor número de entidades. Originalmente um princípio da filosofia reducionista do nominalismo, é hoje tido como uma das máximas heurísticas (regra geral) que aconselham economia, parcimónia e simplicidade, especialmente nas teorias científicas.


"Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor"

— William de Ockham

Fonte: Wikipédia

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Um instante


















Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.

[Ferreira Gullar]

Escrever nem uma coisa...











Escrever nem uma coisa
Nem outra —
A fim de dizer todas —
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vagalumes.


[Manoel de Barros, in "O guardador de águas"]