quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Liderança e Aquecimento Global, por Luiz Felipe d’Avila

Copenhague revelou que o aquecimento global não está entre as nossas principais prioridades políticas. Defender o meio ambiente pode conferir prestígio internacional, mas votos e poder se conquistam estimulando o crescimento econômico, gerando empregos e investindo em programas sociais que ajudem a aumentar a renda da população mais pobre. Nenhum dos lideres reunidos na Dinamarca estava disposto a assumir acordos internacionais e metas climáticas que dificultem a sua tarefa de alcançar esses objetivos. Quando confrontados com o fato de que terão de investir por volta de 2% do PIB mundial para tentar conter o aquecimento da Terra em uma década, os líderes imediatamente pensam que há outras prioridades que se sobrepõem à questão climática.

Bjørn Lomborg, cientista político e ambientalista dinamarquês, resume o dilema político em uma questão crucial: é preferível gastar US$ 180 bilhões para reduzir a temperatura da terra 1 ou 2 graus Celsius ou utilizar metade desse recurso para assegurar água potável, saneamento básico, assistência médica e educação elementar para a população? Para responder a essa questão, Lomborg reuniu cinco Prêmios Nobel da economia e pediu para que calculassem o retorno social de cada dólar investido. Eis aqui alguns resultados curiosos:

•    Prevenção contra AIDS. O retorno social é de US$ 40 para cada dólar investido.
•    Combater desnutrição: US$ 30 para cada dólar investido
•    Prevenção contra malária: US$ 10 dólares para cada dólar investido
•    Aquecimento global (cumprir o Protocolo de Kyoto): US$ 0,30 para cada dólar investido

O resultado deste estudo nos oferece um ótimo indicador das prioridades da sociedade. Líderes não costumam correr risco e remar contra os interesses da sociedade por causas que não considerem vitais e prioritárias. Portanto, não é de se estranhar que Lula ou Obama prefiram comprometer 2% do PIB para dobrar o Bolsa Família ou viabilizar a reforma do sistema público de saúde americano a investir na esperança de reduzir a temperatura da terra em uma década. Assim como todos nós, líderes políticos são obrigados a lidar com recursos finitos e demandas infinitas. Elegemos prioridades e somos obrigados a fazer escolhas que implicam a renúncia a algumas coisas em benefício de outras. Com exceção da pequena ilha de Tuvalu que está desaparecendo — e, feliz ou infelizmente, não é consenso que o aquecimento global tenha algo a ver com isso —, a maioria das pessoas não está disposta a fazer grandes sacrifícios hoje para salvar o planeta num amanhã sem data. É improvável que aceitassem um aumento de 20% a 50% na conta de luz, no preço dos alimentos ou do combustível para acabarmos com a queima de carvão ou com a utilização de adubos e pesticidas.

Então, devemos cruzar os braços e não fazer nada? De maneira nenhuma! A primeira atitude de um líder é compreender a diferença entre os desafios técnicos e os desafios comportamentais. Mudança de hábito, de crenças e atitudes exige doses de sacrifício, desconforto e experimentação. É um  processo de reeducação e de conscientização que cobra coragem, perseverança, determinação e consciência de que todo experimento pode dar errado e não atingir os resultados esperados. Lideres só correrão o risco de engajar as pessoas em mudanças comportamentais se forem capazes de vislumbrar os ganhos futuros, como voto e poder. Para isso, precisam fazer exatamente o oposto do que fizeram em Copenhague. Em primeiro lugar, é preciso determinar metas claras, objetivas e factíveis (como a redução de CO²). Em segundo lugar, é necessário criar medidas que até podem gerar desconforto nas pessoas (mudança de crenças e atitudes), mas sem colocar em risco aquilo que lhes é vital: o preço dos alimentos, por exemplo. Em terceiro lugar, o mundo pede bons educadores, engajando as pessoas para enfrentar com realismo as mudanças de hábitos e crenças, evitando o apelo às pílulas de demagogia — como culpar as “potências imperialistas”, o “consumismo desenfreado” ou a “ganância dos empresários” pelos males da humanidade e pelo aquecimento global — para aliviar a dor e a tensão de se adaptar as novas circunstâncias.

A visão dos líderes políticos é calibrada pela realidade em que atuam. Se a sua visão estiver muito distante daquela das pessoas, os seus objetivos não as atrairão e não as mobilizarão. Se os seus objetivos se circunscrevem aos objetivos de curto prazo, eles serão incapazes de promover mudanças realmente  transformadoras na sociedade. Hoje, os líderes políticos não estão dispostos a correr o risco de irritar os seus concidadãos e criar desconforto nas pessoas, desafiando-as a promover mudanças radicais no seu modo de viver, nos seus valores e no seu comportamento para “salvar” o planeta. Antes de exigir sacrifícios do povo, os lideres precisam fomentar o amadurecimento da questão climática no seio da sociedade. De fato, a conferência em Copenhague nos ensinou que, ao criarmos um senso de urgência para a questão do aquecimento global sem estarmos preparados e dispostos a fazer os sacrifícios necessários para mudarmos de hábitos, crenças e atitudes, geramos frustração na sociedade e descrédito dos líderes.

Copenhague destruiu a falsa ilusão de que podemos enfrentar o aquecimento global recorrendo apenas a soluções técnicas (como utilização de dinheiro e tecnologia) e nos esquivando da responsabilidade de rever a maneira como vivemos, consumimos e geramos produtos, bens e serviços. A questão do aquecimento global retrata os conflitos de valores entre o que pregamos e o que fazemos.

Luiz Felipe d’Avila é diretor-presidente do Centro de Liderança Pública.

Fonte: http://www.universodoconhecimento.com.br/content/view/529/24/

Nenhum comentário:

Postar um comentário