sábado, 24 de julho de 2010

In Ensaios Céticos

"Nossa ética atual é uma mistura curiosa de superstição e racionalismo. O assassinato é um crime antigo e o percebemos através de uma longa névoa de horror. A falsificação é um crime moderno e o encaramos de forma racional. Punimos os falsificadores, mas não os consideramos seres estranhos, ou os discriminamos, como fazemos com os assassinos. E ainda pensamos, na prática social, qualquer que seja a nossa teoria, que a virtude consiste em não fazer, em vez de fazer. O homem que se abstém de certos atos rotulados de 'pecados' é um homem bom, embora nunca faça nada para o bem-estar dso outros. Isso, é claro, não é uma atitude recomendada pelo Evangelho: 'Amar ao próximo como a si mesmo' é um preceito positivo. Mas em todas as comunidades cristãs o homem que obedece a esse preceito é perseguido, torna-se no mínimo pobre, em geral é preso e, às vezes, morto. O mundo está cheio de injustiças, e aqueles que lucram com a injustiça estão numa posição de administrar as recompensas e os castigos. As recompensas vão para os que inventam justificativas engenhosas para a desigualdade; os castigos para aqueles que tentam remediá-la. Não conheço nenhum país onde o homem que tenha um amor genuíno pelo seu vizinho possa evitar a desonra. Em Paris, antes da eclosão da guerra [Primeira Guerra Mundial], Jean Jaurès, o melhor cidadão da França, foi assassinado; o assassino foi absolvido sob o arguemento de que tinha realizado um serviço público. Esse caso foi peculiarmente dramático, porém o mesmo tipo de incidente que acontece em todo lugar.

Aqueles que defendem a moralidade tradicional às vezes admitem que ela não é perfeita, mas sustentam que qualquer crítica fará com que toda a moralidade entre em colapso. Esse não será o caso se a crítica estiver baseada em algo positivo e construtivo, porém apenas se for conduzida tendo em vista o prazer momentâneo. Voltando a Bentham: ele defendia como base da moral ,'a maior felicidade do maior número'.Um homem que age sob esse princípio terá uma vida muito mais árdua do que aquele que apenas obedeça a preceitos convencionais. Ele, necessariamente, se transformará no campeão dos oprimidos, e por isso estará sujeito à inimizade dos grandes. Ele proclamará fatos que o sistema deseja ocultar; ele negará falsidades destinadas afastar a simpatia daqueles que precisam dela. Esse modo de vida não conduz ao colapso de uma moralidade genuína. A moralidade oficial sempre foi opressora e negativa: diz-se 'não deverás' sem se dar ao trabalho de investigar o efeito das atividades não proibidas pelo código. Contra esse tipo de moralidade todos os grandes professores místicos e religiosos protestaram em vão: seus seguidores ignoraram seus pronunciamentos mais explícitos. Parece improvável, portanto, que qualquer melhoria em larga escala advenha desses métodos.

Penso que devemos esperar mais do progresso da razão e da ciência. Os homens, aos poucos, se conscientizarão que o mundo cujas instituições baseiam-se no ódio e na injustiça não é o que terá maior probabilidade de gerar felicidade. A última guerra ensinou essa lição a alguns poucos, e teria ensinado a muitos mais se tivesse terminado em empate. Precisamos de uma moralidade baseada no amor à vida,  no prazer de crescer e nas realizações positivas, não na represão e na proibição. Um homem deveria ser considerado 'bom' se fosse feliz, expansivo, generoso e alegre quando os outros estivessem felizes; se fosse assim, uns poucos pecadilhos seriam considerados como de importãncia menor. No entanto, um homem que adquire fortuna por meio de crueldade e exploração deveria ser visto como hoje vemos o chamado homem "imoral"; e assim deveria ser julgado, mesmo que frequentasse a igreja com regularidade e desse uma parte de seus ganhos ilícitos com propósitos públicos. Para trazer esse assunto à discussão, é apenas necessário instilar uma atitude racional a questões éticas, em vez da mistura de superstição e opressão que ainda é aceita como 'virtude' entre personagens importantes. O poder da razão é pequeno nestes dias, mas continuo sendo um racionalista não arrependido. A razão pode ser uma força pequena, porém é constante e trabalha sempre em uma direção, enquanto que as forças da irracionalidade destroem-se umas às outras em uma luta fútil. Portanto, cada orgia do irracionalismo acaba por fortalecer os amigos da razão e mostra, mais uma vez, que são os únicos verdadeiros amigos da humanidade."

[Bertrand Russell, Ensaios Céticos]

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