quarta-feira, 30 de junho de 2010

Pneumotórax




Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
   [ pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

[Manuel Bandeira]

sábado, 26 de junho de 2010

Sonata ao luar

Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai Ramela, passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo.
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

[Manoel de Barros]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O interrogatório do homem que saiu de casa de-
pois da hora de recolher começou há quinze dias e
ainda não acabou

Os inquiridores fazem uma pergunta em cada
sessenta minutos vinte quatro por dia e exi-
gem cinqüenta e nove respostas diferentes para
cada uma

É um método novo

Acreditam que é impossível não estar a resposta
verdadeira entre as cinqüenta e nove que foram
dadas

E contam com a perspicácia do ordenador para
descobrir qual delas seja e a sua ligação com as
outras

Há quinze dias que o homem não dorme nem
dormirá enquanto o ordenador não disser não pre-
ciso de mais ou o médico não preciso de tanto

Caso em que terá o seu definitivo sono

O homem que saiu de casa depois da hora de
recolher não dirá por que saiu

E os inquiridores não sabem que a verdade está
na sexagésima resposta

Entretanto a tortura continua até que o médico
declare

Não vale a pena.

[José Saramago]

Morte e Vida Stanley

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Além alma

(Uma grama depois)

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
Não tem vaga neste lugar.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
eu estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

[Paulo Leminski]

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Recessão, mudança climática e a volta do planejamento, por Anthony Giddens

Especial para o Global Viewpoint

A mudança climática e como responder a ela são assuntos dos noticiários do momento. Assim como, é claro, a recessão econômica, que também é global e profundamente preocupante. Mas qual é a relação entre as duas?

Toda crise é potencialmente um estímulo para lado positivo da personalidade -é uma oportunidade de começar novamente, disse Sigmund Freud. Esse ponto não passou despercebido pelos líderes políticos. Depois do exemplo do presidente Obama nos EUA, muitos endossaram a idéia de um New Deal da mudança climática. O investimento em tecnologias de baixo carbono, o isolamento de prédios e o transporte público podem dar uma importante contribuição para a economia mover-se novamente, é o raciocínio.

Nick Stern, autor do celebrado Relatório Stern da economia da mudança climática, argumenta que tais medidas devem envolver pelo menos 20% dos fundos dos planos de recuperação. As propostas de Obama são menores que isso, mas alguns países estão alocando muito mais. A Coreia do Sul, por exemplo, está dedicando nada menos do que dois terços de seu pacote de recuperação para tais fins.

Eu apóio a idéia de um New Deal de mudança climática e espero que produza o dobro de benefícios propostos -o triplo de benefício, de fato, se os países conseguirem também reduzir sua dependência sobre o petróleo importado. Ainda assim, o efeito estimulante levantado por Freud deve nos unir em pensamento e ação em uma frente muito mais ampla.

Estamos no limiar de uma importante revolução, o fim da economia do combustível fóssil; agora é hora de tentar pensar em suas implicações prováveis. Essas vão desde questões triviais e mundanas até as mais amplas e especulativas.

Do lado trivial, uma importante preocupação tem que ser com empregos. Segundo seus defensores, o New Deal de mudança climática deve criar novos empregos por si mesmo. Não tenho tanta certeza disso. Será que significa, como teria que significar, a criação de empregos líquidos- ou seja, números maiores do que existiam antes? Quando mais energia for produzida de fontes de baixo carbono e quanto mais a eficiência energética aumentar, alguns trabalhadores nas indústrias baseadas em combustíveis fósseis, tais como minas de carvão, ficarão sem trabalho. A maior parte das inovações tecnológicas reduz, em vez de aumentar, a necessidade de força de trabalho.

Os empregos serão criados não tanto pelas tecnologias renováveis quanto pelas mudanças de estilo de vida provocadas pelas questões de mudança climática e segurança energética. As sensibilidades vão mudar e, com elas, os gostos. A nova economia que emergirá será ainda mais radicalmente pós-industrial do que a que temos hoje. Caberá aos empresários identificar as oportunidades econômicas que virão com a expansão -como foram encontradas formas de revitalizar as regiões portuárias onde a indústria de navegação evaporou-se.

Enquanto ponderamos de que forma deve ser a recuperação da recessão, devemos pensar seriamente sobre a natureza do próprio crescimento econômico, ao menos nos países ricos. Sabe-se há muito tempo que, acima de certo nível de prosperidade, o crescimento não necessariamente leva a um maior bem-estar pessoal e social. Agora é a hora de introduzir medidas mais completas de bem-estar junto com o PIB e dar a elas verdadeira ressonância política. Agora é a hora de uma crítica sustentada e positiva do consumismo, com peso político. Agora é hora de trabalhar para uma recuperação que não signifique uma reversão para a sociedade de muito dinheiro.

O período da desregulamentação de Thatcher acabou. O Estado voltou. Precisaremos de uma política industrial ativa e planejamento, em relação às instituições econômicas e também para a mudança climática e política energética.

Os erros feitos por gerações anteriores de planejadores, entretanto, têm que ser evitados. Muitas questões se apresentam. Tome o exemplo da tecnologia renovável. São necessários avanços tecnológicos para que, em algum ponto, os combustíveis fósseis tornem-se história. Ainda assim, como os governos devem decidir quais apoiar? Como eles podem lidar com o fato que as mais radicais inovações tecnológicas- tais como a Internet- muitas vezes não são previstas por ninguém?

Temos que encontrar um novo papel para o governo, mas também para mecanismos de mercado. Instrumentos financeiros complexos subitamente sairão de moda, culpados pelo colapso do mercado. Ainda assim, teremos a necessidade deles porque, propriamente regulados, algumas vezes são de fato chave para o investimento de longo prazo, em vez de uma força contrária.

Considere a questão do seguro contra eventos climáticos extremos, tais como os furacões no Caribe. Tais episódios vão se tornar mais frequentes e mais intensos, já que a mudança climática, até certo ponto, certamente ocorrerá. Prover seguro contra danos será uma forma importante de se adaptar a ela -especialmente quando pessoas mais pobres são envolvidas. A indústria de seguros privada terá que fornecer a maior parte do capital, já que dadas suas muitas obrigações só pode ser a seguradora do último recurso.

E depois, bem, há o avô da coisa toda, a globalização, que progrediu rapidamente sem controles internacionais adequados. A regulamentação eficaz dos mercados financeiros mundiais é essencial para o futuro. Talvez ajude a pavimentar o caminho para a colaboração, essencial para lidar com a mudança climática -muito tem que ser repensado neste quesito, enquanto 200 nações se preparam para as reuniões patrocinadas pela ONU em Copenhague em dezembro. A crise financeira e suas consequências deram uma sacudida nas formas estabelecidas de pensar que deve se provar muito importante. Estamos no final do final da história.

* Anthony Giddens, sociólogo e guru do "terceiro caminho" de Tony Blair, é ex-diretor da Escola de Economia de Londres. Seu novo livro, "The Politics of Climate Change" (A política da mudança climática), será publicado pela Polity Press no dia 20 de março.



Fonte: USA Today/ Uol

terça-feira, 8 de junho de 2010

"Science can teach us, and I think our own 
hearts can teach us, no longer to look around 
for imaginary suports, no longer to invent 
allies in the sky, bat rather to look to our 
own efforts her below to make this world 
a fit place to live in, instead of the sort of 
place that the churches in all these centuries 
have made it."

[Bertrand Russell, from 'Why I am Not a Christian']

segunda-feira, 7 de junho de 2010



"Três paixões, simples mas extremamente fortes, governaram minha vida: o desejo de amar, a procura pelo conhecimento e um incontido compadecimento pelo sofrimento humano."

[Bertrand Russell]