quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pedro Salvadores





A Juan Murchison

Quero deixar escrito, talvez pela primeira vez, um dos fatos mais estranhos e mais tristes de nossa história. Intervir o menos possível em sua narrativa, prescindir de adições pitorescas e de conjeturas infundadas é, parece-me, a melhor maneira de fazê-lo.

Um homem, uma mulher e a vasta sombra de um ditador são os três personagens. O homem chamava-se Pedro Salvadores; meu avô Acevedo viu-o, dias ou semanas depois da batalha de Caseros. Pedro Salvadores não diferia, talvez, do comum das pessoas, porém seu destino e os anos o fizeram único. Seria um senhor como tantos outros de sua época. Possuiria (é possível supor) um estabelecimento no campo e era unitário. O sobrenome de sua mulher era Planes; os dois viviam na rua Suipacha, não longe da esquina do Temple. A casa em que os fatos ocorreram seria igual às outras: a porta da rua, o vestíbulo, a porta-cancela, os aposentos, a profundidade dos pátios. Uma noite, por volta de 1842, ouviram o crescente e surdo rumor dos cascos dos cavalos na rua de terra e os vivas e morras dos ginetes. Os membros da Mazorca, desta vez, não passaram ao largo. À gritaria sucederam os repetidos golpes; enquanto os homens derrubavam a porta, Salvadores pôde afastar a mesa da sala de jantar, levantar o tapete e esconder-se no porão. A mulher repôs a mesa no lugar. A Mazorca irrompeu; vinham para levar Salvadores. A mulher declarou que este tinha fugido para Montevidéu. Não acreditaram; açoitaram-na, quebraram toda a louça azul, revistaram a casa, mas não lhes ocorreu erguer o tapete. À meia-noite foram embora, não sem antes terem jurado voltar. 
 
Aqui começa verdadeiramente a história de Pedro Salvadores. Viveu nove anos no porão. Por mais que afirmemos a nós mesmos que os anos são feitos de dias e os dias de horas e que nove anos é um termo abstrato e uma soma impossível, esta história é atroz. Suspeito que, na sombra que seus olhos aprenderam a decifrar, não pensava em nada, nem sequer em seu ódio nem em seu perigo. Estava aí, no porão. Alguns ecos daquele mundo que lhe estava vedado lhe chegariam de cima: os passos habituais de sua mulher, o baque do bocal do poço e do balde, a pesada chuva no pátio. De resto, cada dia podia ser o último.

A mulher foi despedindo a criadagem, que era capaz de delatá-los. Disse a todos os seus que Salvadores se encontrava na Banda Oriental. Ganhou o pão dos dois, costurando para o exército. No decurso dos anos teve dois filhos; a família a repudiou, atribuindo-os a um amante. Depois da queda do tirano, pediram-lhe  erdão, de joelhos. 

O que foi, quem foi Pedro Salvadores? Encarceraram-no o terror, o amor, a invisível presença de Buenos Aires e, finalmente, o hábito? Para que ele não a deixasse só, sua mulher lhe daria incertas notícias de conspirações e vitórias. É possível que fosse covarde e a mulher lealmente lhe escondeu que sabia disso. Imagino-o em seu porão, talvez sem um candeeiro, sem um livro. A sombra o mergulharia no sono. Sonharia, a princípio, com a noite tremenda em que o aço procurava a garganta, com as ruas abertas, com a planície. Anos mais tarde, não poderia fugir e sonharia com o porão. Seria, no começo, um acossado, um ameaçado; depois, não saberemos nunca, um animal tranqüilo em sua toca ou uma espécie de obscura divindade.

Tudo isso até aquele dia de verão de 1852 em que Rosas fugiu. Foi então que o homem secreto saiu à luz do dia; meu avô falou com ele. Balofo e obeso, estava da cor da cera e não falava em voz alta. Nunca lhe restituíram os campos que lhe foram confiscados; creio que morreu na miséria. 

Como todas as coisas, o destino de Pedro Salvadores parece-nos um símbolo de algo que estamos a ponto de compreender.

[Jorge Luis Borges]

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