quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Etnógrafo


O caso foi-me narrado no Texas, mas acontecera em outro Estado. Conta com um único protagonista, salvo que em toda a história os protagonistas são milhares, visíveis e invisíveis, vivos e mortos. Chamava-se, creio, Fred Murdock. Era alto ao estilo americano, nem louro nem moreno, com perfil de machado, de muito poucas palavras. Nada singular havia nele, nem sequer essa fingida singularidade que é própria dos jovens. Naturalmente respeitoso, não desacreditava dos livros nem dos que escrevem os livros. Sua idade era essa em que o homem não sabe ainda quem é e está disposto a se entregar ao que lhe propõe a sorte: a mística do persa ou a desconhecida origem do húngaro, as aventuras da guerra ou da álgebra, o puritanismo ou a orgia. Na universidade aconselharam-lhe o estudo das línguas indígenas. Há ritos esotéricos que perduram em certas tribos do Oeste; seu professor, um homem idoso, propôs lhe que fizesse sua morada em uma reserva, que observasse os ritos e que descobrisse o segredo que os feiticeiros revelam ao iniciado. Na volta, redigiria uma tese que as autoridades do instituto dariam a lume. Murdock aceitou com alacridade. Um de seus antepassados morrera nas guerras da fronteira; essa antiga discórdia de suas estirpes era agora um vínculo. Previu, sem dúvida, as dificuldades que o aguardavam, tinha de conseguir que os homens vermelhos o acolhessem como um dos seus. Empreendeu a longa aventura. Mais de dois anos viveu na pradaria, entre paredes de adobe ou à intempérie. Levantava-se antes da aurora, deitava-se ao anoitecer, chegou a sonhar em um idioma que não era o de seus pais. Habituou seu paladar a sabores ásperos, cobriu-se com roupas estranhas, esqueceu os amigos e a cidade, chegou a pensar de uma maneira que sua lógica refutava. Durante os primeiros meses de aprendizado tomava notas sigilosas, que rasgaria depois, talvez para não despertar a suspicácia dos outros, talvez porque já não as precisasse. Ao término de um prazo prefixado por certos exercícios de índole moral e de índole física, o sacerdote ordenou-lhe que fosse relembrando seus sonhos e que os confiasse a ele ao clarear o dia. Comprovou que nas noites de lua cheia sonhava com bisões. Confiou esses sonhos repetidos a seu mestre; este acabou por revelarlhe sua doutrina secreta. Uma manhã, sem despedir-se de ninguém, Murdock partiu. 
Na cidade, sentiu saudades daquelas tardes iniciais na planície em que sentira, fazia tempo, saudades da cidade. Dirigiu-se ao gabinete do professor e lhe disse que sabia o segredo e que resolvera não revelá-lo. 
– Seu juramento o impede? – perguntou o outro.
– Não é essa minha razão – falou Murdock. – Naquelas lonjuras aprendi algo que não posso dizer.
– Talvez o idioma inglês seja insuficiente? – observaria o outro.
– Nada disso, meu senhor. Agora que possuo o segredo, poderia enunciálo de cem modos diferentes e até contraditórios. Não sei muito bem como lhe dizer que o segredo é precioso e que agora a ciência, nossa ciência, parece-me simples frivolidade.
Acrescentou ao fim de uma pausa:
– O segredo, ademais, não vale o que valem os caminhos que a ele me conduziram. Esses caminhos devem ser trilhados.
O professor disse-lhe com frieza:
– Comunicarei sua decisão ao Conselho. O senhor pensa viver entre os índios?
Murdock respondeu-lhe:
– Não. Talvez não volte à pradaria. O que me ensinaram seus homens vale para qualquer lugar e para qualquer circunstância.
Tal foi, em essência, o diálogo.
Fred casou-se, divorciou-se e é agora um dos bibliotecários de Yale.

[Jorge Luis Borges]

Nenhum comentário:

Postar um comentário