sexta-feira, 30 de abril de 2010

'Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam
Em seus papiros Papilon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
Que normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai
Oh,Oh,Oh...com precisão...'

[Vila do Sossego, Zé Ramalho]

quinta-feira, 29 de abril de 2010

— Eu queria propor-lhe uma troca de ideias...
— Deus me livre!

[Mario Quintana]

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito."

[Manoel de Barros]

terça-feira, 27 de abril de 2010

Ulrica





Hann tekr sverthit Gram ok leggr i methal theira bert.
Völsunga Saga, 27

Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, à minha lembrança pessoal da realidade, o que é a mesma coisa. Os fatos ocorreram há muito pouco, porém sei que o hábito literário é, também, o hábito de intercalar traços circunstanciais e de acentuar as ênfases. Quero narrar o meu encontro com Ulrica (não soube seu sobrenome e talvez nunca venha a sabê-lo) na cidade de York. A crônica abarcará uma noite e uma manhã. Nada me custaria referir que a vi pela primeira vez junto às Cinco Irmãs de York, esses vitrais puros de toda a imagem que respeitaram os iconoclastas de Cromwell, porém o fato é que nos conhecemos na  salinha do Northern Inn, que está do outro lado das muralhas. Éramos poucos e ela estava de costas. Alguém lhe ofereceu uma bebida e ela recusou.

— Sou feminista — disse. — Não quero arremedar os homens. Desagrada-me seu tabaco e seu álcool.

A frase queria ser engenhosa e adivinhei que não era a primeira vez  que a pronunciava. Soube depois que não era característica dela, mas o que dizemos nem sempre se parece conosco. Contou que havia chegado tarde ao museu, mas que a deixaram entrar quando souberam que era norueguesa. Um dos presentes comentou:

— Não é a primeira vez que os noruegueses entram em York.
— Pois é — disse ela. — a Inglaterra foi nossa e a perdemos, se é que alguém pode ter algo ou algo pode  ser perdido.

Foi então que a olhei. Uma linha de William Blake fala de moças de suave prata ou furioso ouro, porém em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. Era leve e alta, de traços afilados e de olhos cinzentos. Menos que seu rosto, impressionou-me seu ar de tranqüilo mistério. Sorria facilmente e o sorriso parecia afastá-la. Vestia-se de preto, o que é raro em terras do Norte, que tentam alegrar com cores o apagado do ambiente. Falava um inglês nítido e preciso e acentuava levemente os erres. Não sou observador; essas coisas descobri pouco a  pouco.
Apresentaram-nos. Disse-lhe que eu era professor da Universidade de los Andes em Bogotá. Esclareci que era colombiano.
Perguntou-me de modo pensativo:

— O que é ser colombiano?
— Não sei — respondi. — É um ato de fé.
— Como ser norueguesa — assentiu.

Nada mais posso recordar do que se disse nessa noite. No dia seguinte, desci cedo para a sala de jantar. Pelas vidraças vi que havia nevado; os páramos se perdiam na da manhã. Não havia ninguém mais. Ulrica me convidou para a sua mesa. Disse que lhe agradava sair para caminhar sozinha. Lembrei-me de um chiste de Schopenhauer e respondi:

— A mim também. Podemos sair juntos os dois. 

Afastamo-nos da casa, sobre a neve recente. Não havia uma alma nos campos. Propus que fôssemos a Thorgate, que fica rio abaixo, a algumas milhas. Sei que já estava enamorado de Ulrica; não teria desejado a meu lado nenhuma outra pessoa. Ouvi subitamente o distante uivo de um lobo. Nunca tinha ouvido um lobo uivar, mas sei que era um lobo. Ulrica não se alterou. Em seguida, disse, como se pensasse em voz alta:

— As poucas e pobres espadas que vi ontem em York Minster me comoveram mais que as grandes naves do museu de Oslo. 

Nossos caminhos se cruzavam. Ulrica, nessa tarde, prosseguiria a viagem em direção a Londres; eu, até  Edimburgo.

— Em Oxford Street — ela disse-me — repetirei os passos de Quincey, que procurava a sua Anna perdida entre as multidões de Londres.
— De Quincey — respondi — deixou de procurá-la. Eu, ao longo do tempo, continuo procurando-a.
— Talvez — disse em voz baixa — a tenhas encontrado.

Compreendi que uma coisa inesperada não me estava proibida e a beijei-lhe a boca e os olhos. Afastou-me com suave firmeza e depois declarou:

— Serei tua na pousada de Thorgate. Peço-te, enquanto isso, que não me toques. É melhor que assim seja.

Para um celibatário entrado em anos, o amor é um dom que já não se espera. O milagre tem direito de impor condições. Pensei em minha mocidade em Popayán e em uma moça do Texas, clara e esbelta como Ulrica, que me havia negado seu amor. Não incorri no erro de lhe perguntar se me amava. Compreendi que não era o primeiro e que não seria o último. Essa aventura, talvez a derradeira para mim, seria uma de tantas para essa resplandecente e resoluta discípula de Ibsen.
De mão dadas, seguimos.

— Tudo isto é como um sonho — disse — e eu nunca sonho.
— Como aquele rei — replicou Ulrica — que não sonhou até que um feiticeiro o fez dormir numa pocilga.

Acrescentou em seguida:

— Ouve. Um pássaro está prestes a cantar.

Pouco depois ouvimos o canto.

— Nestas terras — disse — pensam que quem está para a morrer prevê o futuro.
— E eu estou para morrer — disse ela.

Olhei-a, atônito.

— Cortemos pelo bosque — apressei-a — Chegaremos mais rápido a Thorgate.
— O bosque é perigoso — replicou.

Seguimos pelos páramos.

— Eu gostaria que este momento durasse para sempre —murmurei.
— "Sempre" é uma palavra que não é permitida aos homens —afirmou Ulrica e, para minorar a ênfase, pediu-me que repetisse o meu nome, que não ouvira bem.
— Javier Otárola — disse-lhe.

Quis repeti-lo e não pôde. Fracassei, igualmente, com o nome Ulrikke.

— Vou te chamar Sigurd — declarou com um sorriso.
— Se sou Sigurd — repliquei, — tu serás Brynhild.

Havia atrasado o passo.

— Conheces a saga? — perguntei-lhe.
— Naturalmente — disse. — A trágica história que os alemães estragaram com seus tardios Nibelungos.

Não quis discutir e respondi:

— Brynhild, caminhas como se quisesses que entre os dois houvesse uma espada no leito.

Estávamos de repente diante da pousada. Não me surpreendeu que se chamasse, como a outra, Northern Inn. Do alto da escada, Ulrica me gritou:

— Ouviste o lobo? Já não há lobos na Inglaterra. Apressa-te.

Ao subir para o andar de cima, notei que as paredes estavam empapeladas à maneira de William Morris, de um vermelho muito profundo, com entrelaçados frutos e pássaros. Ulrica entrou primeiro. O aposento escuro era baixo, com um teto de duas águas. O esperado leito se duplicava em um vago cristal e a polida caoba recordou-me o espelho da Escritura. Ulrica já se havia despido. Chamou-me pelo meu verdadeiro nome, Javier. Senti que a neve aumentava. Já não havia nem espelhos. Não havia uma espada entre os dois. Como a areia, escoava o tempo. Secular na sombra fluiu o amor, e possuí pela primeira e última vez a imagem de Ulrica.

[Jorge Luis Borges]

segunda-feira, 26 de abril de 2010

"Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias."

[Jorge Luis Borges]

sábado, 24 de abril de 2010

"Três paixões, simples mas extremamente fortes, governaram minha vida: o desejo de amar, a procura pelo conhecimento e um incontido compadecimento pelo sofrimento humano."

[Bertrand Russell – Autobiography, 1967]

Schopenhauer e seu pensamento sobre a solidão

 
 
O instinto de sociabilidade de cada um está na proporção inversa da sua idade. A criancinha solta gritos de medo e de dor, lamentando ter sido deixada sozinha por alguns minutos. Para jovens rapazes, estar sozinho é uma grande penitência. Os adolescentes reunem-se com facilidade: só os mais nobres e mais dotados de espírito já procuram, às vezes, a solidão. Contudo, passar um dia inteiro sozinhos ainda lhes é penoso. Para o homem adulto, todavia, isso é fácil: ele consegue passar bastante tempo sozinho, e tanto mais quanto mais avança nos anos. O ancião, único sobrevivente de gerações desaparecidas, encontra na solidão o seu elemento próprio, em parte porque já ultrapassou a idade de sentir os prazeres da vida, em parte porque já está morto para eles. Entretanto, em cada indivíduo, o aumento da inclinação para o isolamento e a solidão ocorrerá em conformidade com o seu valor intelectual.

Pois tal tendência, como dito, não é puramente natural, produzida diretamente pela necessidade, mas, antes, só um efeito da experiência vivida e da reflexão sobre ela, sobretudo da intelecção adquirida a respeito da miserável índole moral e intelectual da maioria dos homens. O que há de pior nesse caso é o fato de as imperfeições morais e intelectuais do indivíduo conspirarem entre si e trabalharem de mãos dadas, donde resultam os fenômenos mais repulsivos, que tornam o convívio com a maioria dos homens insuportável. E eis por que, embora haja muita coisa ruim neste mundo, a pior delas ainda é a sociedade. O próprio Voltaire, o sociável francês, teve de dizer: La terre est couverte de gens qui ne méritent pas qu'on leur parle (A terra está coberta de pessoas que não merecem que se lhes fale).

[Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos']

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pedro Salvadores





A Juan Murchison

Quero deixar escrito, talvez pela primeira vez, um dos fatos mais estranhos e mais tristes de nossa história. Intervir o menos possível em sua narrativa, prescindir de adições pitorescas e de conjeturas infundadas é, parece-me, a melhor maneira de fazê-lo.

Um homem, uma mulher e a vasta sombra de um ditador são os três personagens. O homem chamava-se Pedro Salvadores; meu avô Acevedo viu-o, dias ou semanas depois da batalha de Caseros. Pedro Salvadores não diferia, talvez, do comum das pessoas, porém seu destino e os anos o fizeram único. Seria um senhor como tantos outros de sua época. Possuiria (é possível supor) um estabelecimento no campo e era unitário. O sobrenome de sua mulher era Planes; os dois viviam na rua Suipacha, não longe da esquina do Temple. A casa em que os fatos ocorreram seria igual às outras: a porta da rua, o vestíbulo, a porta-cancela, os aposentos, a profundidade dos pátios. Uma noite, por volta de 1842, ouviram o crescente e surdo rumor dos cascos dos cavalos na rua de terra e os vivas e morras dos ginetes. Os membros da Mazorca, desta vez, não passaram ao largo. À gritaria sucederam os repetidos golpes; enquanto os homens derrubavam a porta, Salvadores pôde afastar a mesa da sala de jantar, levantar o tapete e esconder-se no porão. A mulher repôs a mesa no lugar. A Mazorca irrompeu; vinham para levar Salvadores. A mulher declarou que este tinha fugido para Montevidéu. Não acreditaram; açoitaram-na, quebraram toda a louça azul, revistaram a casa, mas não lhes ocorreu erguer o tapete. À meia-noite foram embora, não sem antes terem jurado voltar. 
 
Aqui começa verdadeiramente a história de Pedro Salvadores. Viveu nove anos no porão. Por mais que afirmemos a nós mesmos que os anos são feitos de dias e os dias de horas e que nove anos é um termo abstrato e uma soma impossível, esta história é atroz. Suspeito que, na sombra que seus olhos aprenderam a decifrar, não pensava em nada, nem sequer em seu ódio nem em seu perigo. Estava aí, no porão. Alguns ecos daquele mundo que lhe estava vedado lhe chegariam de cima: os passos habituais de sua mulher, o baque do bocal do poço e do balde, a pesada chuva no pátio. De resto, cada dia podia ser o último.

A mulher foi despedindo a criadagem, que era capaz de delatá-los. Disse a todos os seus que Salvadores se encontrava na Banda Oriental. Ganhou o pão dos dois, costurando para o exército. No decurso dos anos teve dois filhos; a família a repudiou, atribuindo-os a um amante. Depois da queda do tirano, pediram-lhe  erdão, de joelhos. 

O que foi, quem foi Pedro Salvadores? Encarceraram-no o terror, o amor, a invisível presença de Buenos Aires e, finalmente, o hábito? Para que ele não a deixasse só, sua mulher lhe daria incertas notícias de conspirações e vitórias. É possível que fosse covarde e a mulher lealmente lhe escondeu que sabia disso. Imagino-o em seu porão, talvez sem um candeeiro, sem um livro. A sombra o mergulharia no sono. Sonharia, a princípio, com a noite tremenda em que o aço procurava a garganta, com as ruas abertas, com a planície. Anos mais tarde, não poderia fugir e sonharia com o porão. Seria, no começo, um acossado, um ameaçado; depois, não saberemos nunca, um animal tranqüilo em sua toca ou uma espécie de obscura divindade.

Tudo isso até aquele dia de verão de 1852 em que Rosas fugiu. Foi então que o homem secreto saiu à luz do dia; meu avô falou com ele. Balofo e obeso, estava da cor da cera e não falava em voz alta. Nunca lhe restituíram os campos que lhe foram confiscados; creio que morreu na miséria. 

Como todas as coisas, o destino de Pedro Salvadores parece-nos um símbolo de algo que estamos a ponto de compreender.

[Jorge Luis Borges]

O Etnógrafo


O caso foi-me narrado no Texas, mas acontecera em outro Estado. Conta com um único protagonista, salvo que em toda a história os protagonistas são milhares, visíveis e invisíveis, vivos e mortos. Chamava-se, creio, Fred Murdock. Era alto ao estilo americano, nem louro nem moreno, com perfil de machado, de muito poucas palavras. Nada singular havia nele, nem sequer essa fingida singularidade que é própria dos jovens. Naturalmente respeitoso, não desacreditava dos livros nem dos que escrevem os livros. Sua idade era essa em que o homem não sabe ainda quem é e está disposto a se entregar ao que lhe propõe a sorte: a mística do persa ou a desconhecida origem do húngaro, as aventuras da guerra ou da álgebra, o puritanismo ou a orgia. Na universidade aconselharam-lhe o estudo das línguas indígenas. Há ritos esotéricos que perduram em certas tribos do Oeste; seu professor, um homem idoso, propôs lhe que fizesse sua morada em uma reserva, que observasse os ritos e que descobrisse o segredo que os feiticeiros revelam ao iniciado. Na volta, redigiria uma tese que as autoridades do instituto dariam a lume. Murdock aceitou com alacridade. Um de seus antepassados morrera nas guerras da fronteira; essa antiga discórdia de suas estirpes era agora um vínculo. Previu, sem dúvida, as dificuldades que o aguardavam, tinha de conseguir que os homens vermelhos o acolhessem como um dos seus. Empreendeu a longa aventura. Mais de dois anos viveu na pradaria, entre paredes de adobe ou à intempérie. Levantava-se antes da aurora, deitava-se ao anoitecer, chegou a sonhar em um idioma que não era o de seus pais. Habituou seu paladar a sabores ásperos, cobriu-se com roupas estranhas, esqueceu os amigos e a cidade, chegou a pensar de uma maneira que sua lógica refutava. Durante os primeiros meses de aprendizado tomava notas sigilosas, que rasgaria depois, talvez para não despertar a suspicácia dos outros, talvez porque já não as precisasse. Ao término de um prazo prefixado por certos exercícios de índole moral e de índole física, o sacerdote ordenou-lhe que fosse relembrando seus sonhos e que os confiasse a ele ao clarear o dia. Comprovou que nas noites de lua cheia sonhava com bisões. Confiou esses sonhos repetidos a seu mestre; este acabou por revelarlhe sua doutrina secreta. Uma manhã, sem despedir-se de ninguém, Murdock partiu. 
Na cidade, sentiu saudades daquelas tardes iniciais na planície em que sentira, fazia tempo, saudades da cidade. Dirigiu-se ao gabinete do professor e lhe disse que sabia o segredo e que resolvera não revelá-lo. 
– Seu juramento o impede? – perguntou o outro.
– Não é essa minha razão – falou Murdock. – Naquelas lonjuras aprendi algo que não posso dizer.
– Talvez o idioma inglês seja insuficiente? – observaria o outro.
– Nada disso, meu senhor. Agora que possuo o segredo, poderia enunciálo de cem modos diferentes e até contraditórios. Não sei muito bem como lhe dizer que o segredo é precioso e que agora a ciência, nossa ciência, parece-me simples frivolidade.
Acrescentou ao fim de uma pausa:
– O segredo, ademais, não vale o que valem os caminhos que a ele me conduziram. Esses caminhos devem ser trilhados.
O professor disse-lhe com frieza:
– Comunicarei sua decisão ao Conselho. O senhor pensa viver entre os índios?
Murdock respondeu-lhe:
– Não. Talvez não volte à pradaria. O que me ensinaram seus homens vale para qualquer lugar e para qualquer circunstância.
Tal foi, em essência, o diálogo.
Fred casou-se, divorciou-se e é agora um dos bibliotecários de Yale.

[Jorge Luis Borges]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Segue o teu destino













Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

[Odes de Ricardo Reis, Fernando Pessoa]

terça-feira, 20 de abril de 2010

Se avexe não...















"Abra um sorriso
Cheirando a ruge carmim
Aceite a dança
Solte a trança e jogue o laço
Se tropeçar no compasso
Caia por cima de mim
Que eu te abraço, eu te seguro
Caia por cima de mim..."

Cotidiano [Fauna da UFCG]

Sempre que chego cedinho pela manhã essa galera preguiçosa está dormindo no tapete da entrada  do bloco onde trabalho. Sujeitinhos simpáticos.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A morte de Ivan Ilitch



Recentemente, entre as minhas caminhadas pela Literatura, me deparei com o livro "A morte de Ivan Ilitch", do escritor russo Leon Tostói. O livro conta a história da vida do personagem principal, Ivan Ilitch, e o seu drama pscicológico e filosófico quando passa a conviver com a certeza da iminência de sua morte. Não vou contar aqui mais detalhes da história, porque essa é certamente uma das obras primas da Literatura mundial e merece uma leitura prazerosa.

Mas, assim como Ivan Ilitch, todos nós um dia vamos passar por esse misterioso acontecimento que é a morte. Sim, a morte. Tão mitológica, tão folclórica, tão amedrontadora para alguns, o fim ou  o começo, não se sabe. Um acontecimento, ou o acontecimento, singular da vida. A morte é paradoxal a tudo aquilo que nós somos porque está diretamente relacionada ao existir. Cada um de nós vive em universo particular gerado por sua consciência. Nesse sentido é um viver solitário, já que ninguém, a não ser você, pode saber como são os seus sentidos, seus pensamentos. Meu sentimento de alegria ou de tristeza pode ser diferente do seu, ou não, mas nunca poderemos comparar o que sentimos, pois os objetos de comparação estão em universos diferentes. Talvez seja por isso que a morte nos impressione tanto, afinal pode ser, e é muito provável que seja, o fim de um universo, do nosso universo, tão íntimo a nós mesmos, tão particular. No entanto, retirando o caráter subjetivo, a morte é muito natural de ser compreendida. Bom, para quem gosta de reflexões sobre a vida e da boa Literatura fica a dica do livro do genial Tolstói.



Edson Porto da Silva,

Graduando do curso de Engenharia Elétrica
Integrante do Grupo PET-Elétrica
Universidade Federal de Campina Grande - UFCG
Ramo Estudantil IEEE UFCG



sexta-feira, 16 de abril de 2010

Holofonia - Holographic Sound [Escute com fones de ouvido!! ]




"Apparently the technology is called Holofonia and it is created by recording from microphones on a “dummy’s” head. It then goes through an algorithm and the audio playback is a split second difference from one ear to the other, thus creating a completely real 3D sound!"

Glassworks

quinta-feira, 15 de abril de 2010

''Privilegiado aquele que, do que todos compartilham este o faz, singularmente.''

[Manoel de Barros]
''Sou um sujeito cheio de recantos. Os desvãos me constam. Tem hora leio avencas. Tem hora, Proust. Ouço aves e beethovens."

[Manoel de Barros]

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ninguém é de ferro

Por séculos, algumas classes sociais viam o trabalho com aversão; hoje, estudo e lazer conjugam-se a ele a fim de satisfazer necessidades humanas
 
por Moacyr Scliar




O poeta pernambucano Ascenso Ferreira (1895-1965) era conhecido pelo humor e pela irreverência. Nada o comprova mais do que seu poema “Filosofia”: “Hora de comer, – comer!/ Hora de dormir, – dormir!/ Hora de vadiar, – vadiar!/ Hora de trabalhar?/ – Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”. Alguém poderia dizer que esta é uma genuína expressão do caráter brasileiro, tal como o famoso “Ai, que preguiça!”, que o personagem Macunaíma de Mário de Andrade repete a todo instante. Mas o que o brasileiro comum está longe de ser é preguiçoso. Gente que acorda às 4 da manhã para ir ao trabalho, dá duro em troca de um salário ínfimo, envelhece e adoece trabalhando, jamais poderia ser acusada de preguiçosa. De outra parte, a aversão ou o desprezo ao trabalho é algo frequente e antigo em determinadas classes sociais. A palavra “negócio” vem do latim nec otium (não ócio). E era um termo pejorativo. O ócio era um direito de gente influente, superior; negócio era para a ralé, para os ambiciosos.

O trabalho físico e manual era particularmente desprezado. Isso se tornava evidente no exercício da medicina. Durante muito tempo os médicos consideraram que diagnosticar e tratar era uma ação que deveria ser feita com a cabeça, não com as mãos. Médicos não faziam incisões em abscessos, por exemplo. Quem cuidava disso era o barbeiro. Na era moderna, por causa dos ferimentos de guerra, a cirurgia passou a ser respeitada, mas até há pouco tempo, na Inglaterra, o título “doctor” se aplicava ao clínico; o cirurgião era “mister”.

No Brasil colônia trabalho era coisa para escravo e havia um costume muito curioso entre certos homens: deixavam crescer a unha do dedo mínimo, que atingia enormes dimensões. Tratava-se de uma mensagem: “Esta unha prova que eu não trabalho com as mãos”. Igualmente desprezado era o imigrante, o colono, que labutava no campo ganhando muito pouco. Gente inteligente, gente fina, ganhava dinheiro sem trabalhar.
 
Mas, por incrível que pareça, a crítica ao trabalho também podia vir da esquerda. O escritor cubano Paul Lafargue (1842-1911) trata desse tema. Filho de um francês com uma judia e neto de uma mulata, Lafargue estudou medicina na França, tornando-se um resoluto militante socialista (não por acaso casou-se com Laura, filha caçula de Karl Marx). Lafargue escreveu O direito à preguiça (1880), um pequeno livro, quase um panfleto, no qual contesta a visão liberal, conservadora ou mesmo esquerdista, do trabalho. É preciso lembrar que nessa época a jornada podia facilmente chegar a 16 horas. Diz Lafargue: “Uma estranha loucura apossa-se das classes operárias das nações onde impera a civilização capitalista. Tem como consequência as misérias individuais e sociais que, há séculos, torturam a nossa triste humanidade. Esta loucura é a paixão doentia pelo trabalho, levada até o esgotamento das forças vitais do indivíduo e sua prole.(...) Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de toda degeneração intelectual, de toda deformação orgânica”.

A pregação de Lafargue teria continuidade com a obra O elogio ao ócio (1932) do contestador filósofo inglês Bertrand Russel. “A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha 15 horas e algumas crianças cumpriam. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida, e as crianças, afastadas do crime.”

Mais recentemente, o italiano Domenico de Masi lançou o conceito do ócio criativo: trabalho, estudo e lazer conjugam-se para satisfazer melhor as necessidades humanas. Pensando bem, Ascenso Ferreira não estava tão errado...
 Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/ninguem_e_de_ferro_2.html

A mais bela fórmula do mundo





Em 1990, os leitores da revista The Mathematical Intelligence, em sua maioria físicos e matemáticos ou estudantes dessas áreas, foram convocados a eleger o mais belo teorema já enunciado. Vencedor incontestável: a “identidade de Euler”. O vencedor do Nobel de Física em 1965, Richard Feynman (1918-1988), descreveu a equação como “joia”. Sua paixão pelas ciências exatas era explícita. Para ele, “quem não sabe matemática não percebe a beleza do universo; e a beleza mantém o mesmo status que a ordem, a simplicidade e outras categorias pitagóricas e platônicas”.

Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/simples___belo_correto__sera__8.html

domingo, 11 de abril de 2010

A vida bate

Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida! O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.

Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.

[Ferreira Gullar]

sábado, 10 de abril de 2010

As ensinanças da dúvida

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

[Thiago de Mello]

Temo por meus olhos

Temo por meus olhos
diante das puras vestes.
E no entretanto, desejo.

Temor que sugere o epílogo
de ser cântaro partido
ao lado de fonte pródiga.

A não contemplar,
prefiro definitiva cegueira.

Não como os homens cegos,
mas como os pés das crianças
que são cegos, caminhando.

[Thiago de Mello]

Quem é quem

Posso dizer: estou pronto
para me dar ao que vier.
Posso errar, mas não por medo
de me ser no que fizer.
Quem me pode responder
que sabe ser, sendo inteiro
fiel e simples, sendo a tudo
que faz e não quer fazer?

[Thiago de Mello]
"O trabalho não é a pena que se paga por ser homem, mas um modo de amar e de ajudar o mundo a ser melhor."

[Trecho de "Canção para os fonemas da alegria", Thiago de Mello]

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Robert Schumann : Arabesque Op.18 in C Major



"Quem na fogueira exulta ainda, não triunfa da dor, mas de felicidade de não sentir a dor que esperava. Um símbolo."

[Além do bem e do mal, Friedrich Nietzsche]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Na escuridão percebi o valor enorme das palavras."

[Graciliano Ramos]
"Ser homem é ser responsável. É sentir que colabora na construção do mundo."

[Saint-Exupéry]

Grandes da Ciência

Heinrich Hertz

Heinrich Rudolf Hertz nasceu em Hamburgo em 22 de fevereiro de 1857. Nessa época, a Alemanha ainda não era um país unificado, mas um território constituído por um conjunto de reinos feudais. O processo de unificação alemã, ocorrido na década de 1860, levou o país a ingressar na Revolução Industrial e deu impulso ao florescimento de suas universidades. Foi nesse contexto histórico que Heinrich Hertz viveu e deu importantes contribuições para o avanço da Ciência e da Engenharia.

Já quando criança, Hertz demonstrava talentos fora do comum, não apenas na escola. Dentre as múltiplas habilidades que adquiriu, pode-se destacar que ele era um excelente mecânico, escultor, desenhista, linguísta e atleta. Na sua juventude, leu obras sobre temas dos mais variados, entre eles: psicologia, economia, ciência política, as teorias evolucionistas de Darwin, botânica, zoologia e mineralogia. Depois de completar a escola secundária Hertz decidiu tomar o caminho da engenheira. Por esse motivo, ele passou um ano trabalhando como aprendiz no escritório de um engenheiro civil em Frankfurt. O ambiente de trabalho o decepcionou, entretanto, como sua carga de obrigações era leve, aproveitou a maior parte do tempo livre nas excelentes galerias de arte e bibliotecas da cidade, modelando em argila e lendo sobre os mais diversos assuntos. Por essa época, tencionando desenvolver uma melhoria no telégrafo de autorregistro, estudou a já extensiva literatura técnica existente sobre telegrafia, um dos mais antigos ramos da Engenharia Elétrica, e decidiu ingressar no Instituto Politécnico de Dresden, escola de engenharia, onde eram oferecidas aulas sobre essa matéria. Hertz iniciou os estudos em Dresden em abril de 1876, mas cursou apenas um semestre, saindo em setembro para cumprir o seu ano de serviço militar obrigatório. Já desiludido com Dresden, ao sair do serviço militar em 1877 Hertz foi para Munique, onde ingressou tanto na escola de engenharia como no curso de Física, passando dois semestres neste regime, que também se provou inadequado.

Embora tenha passado parte de sua juventude interessado em alguns problemas de engenharia, Hertz ainda era muito indeciso sobre que rumo seguir. Felizmente a sua vocação para a Física o fez mudar de rumo e tomar um caminho definitivo. Assim, em 1878, transferiu-se para Berlim tencionando cursar exclusivamente Física. Nessa época, ninguém menos do que Gustav Kirchhoff (1824-1887) e Hermann von Helmholtz (1821-1894), dois famosos cientistas, lecionavam na Universidade de Berlim. Hertz ficou fascinado pelo laboratório de Helmholtz, que era muito bem equipado para a época. Não demorou muito até que o talento incomum de Hertz fosse notado. Logo passou a trabalhar como assistente de laboratório de Helmholtz, uma oportunidade quase nunca dada a um aluno não-graduado. Tão grande era a consideração sobre a capacidade de Hertz que lhe foi permitido terminar a graduação tendo cursado apenas seis semestres regulares (um em Dresden, dois em Munique e três em Berlim), ao invés dos oito regulamentares. O trabalho que havia feito para Helmholtz, determinar experimentalmente se cargas em movimento constituindo uma corrente elétrica possuem ou não massa inercial, concluído com êxito, lhe rendeu um prêmio departamental. Um artigo baseado nos resultados foi aceito na Annalen der Physik und Chemie, num volume onde figuravam também artigos de Kirchhoff, Weber, Wiedemann, Kundt, Rontgen, Siemens e Clausius, o que não era uma companhia nada má para um estudante de apenas 22 anos. Hertz graduou-se recebendo a rara distinção summa cum laude (com a maior das honras), após seu exame oral final.

Depois da graduação em 1880, Hertz permaneceu como assistente de Helmholtz por dois anos e meio, quando foi para a Universidade de Kiel assumir um cargo de instrutor de Física teórica. Em Kiel, Hertz não tinha laboratório e estava bem impaciente ao trabalhar apenas com Física teórica. Em 1884, em Kiel, Hertz publicou um artigo importante: "On the relations between Maxwell's fundamental electromagnetic equations and the fundamental equations of the opposing electromagnetics." Embora extremamente bem fundamentada, a teoria de Maxwell não era aceita por muitos dos físicos da época, principalmente por não haver provas experimentais das suas previsões. Nesse artigo de 1884, Hertz deixa claro que acredita fortemente na teoria de Maxwell.

Em 29 de março de 1885, Hertz se muda para Karlsruhe como professor titular de Física experimental no Technische Hochschule. Lá sua vida mudaria. Agora tendo a sua disposição todas as condições da época para realizar os seus experimentos, Hertz desenvolverá os seus trabalhos de maior contribuição científica. Nos anos que se seguem, se concentrará em verificar experimentalmente as previsões feitas pelas equações de Maxwell. Depois de muito trabalho, até mesmo para desenvolver os equipamentos necessários para a realização dos experimentos, Hertz conseguiu a primeira confirmação da existência de ondas eletromagnéticas em 1886. Por esse motivo, o ano de 1886 é considerado como sendo o ano de nascimento do rádio. Em 1886 também, Hertz casa com Elizabeth Doll, a filha de um colega de faculdade. Após a descoberta prevista das ondas eletromagnéticas, outros experimentos conseguiram sucesso: detecção de ondas estacionárias no ar, da corrente de deslocamento, de ondas estacionárias em fios, do efeito pelicular, das capacidades de refração, reflexão e polarização, dentre outras contribuições. Todos os resultados obtidos por Hertz serviram como base, enfim, para a aceitação da teoria de Maxwell. Os sucessos dos seus experimentos o tornaram famoso pelo mundo, sendo Hertz agraciado com diversas honrarias e vários convites de grandes universidades para lecionar. Em 1889, Hertz aceita um convite e vai trabalhar como professor e pesquisador em Bonn, onde continuou desenvolvendo experimentos com o eletromagnetismo, além de um importante trabalho em uma nova área da mecânica, em que trabalhou durante 1892 e 1893.

Após um período em que adoeceu, acometido de diversas infecções, Hertz faleceu no primeiro dia de 1894, algumas semanas antes do seu trigésimo sétimo aniversário. Deixou duas filhas pequenas, Johanna Hertz (1887-1966), que se tornou médica e Mathilde Hertz (1891-1975), futura zoóloga e etologista. Em homenagem à contribuição dada por Hertz à Ciência, a IEC (International Electrotechnical Commission) oficializou em 1930 o “hertz” (Hz) como a nomenclatura para designar a unidade de frequência em ciclos por segundo.

“(…) I am among the especially elect destined to live for only a short while and yet to live enough…(Heinrich Rudolf Hertz)




Edson Porto da Silva,

Graduando do curso de Engenharia Elétrica
Integrante do Grupo PET-Elétrica
Universidade Federal de Campina Grande - UFCG
Ramo Estudantil IEEE UFCG