domingo, 28 de março de 2010

Caso de amor



Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto que ela bota sentido em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ver o rio do outro lado.

Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada... Deixe, deixe, meu amor.


[BARROS, Manoel de. "Memórias Inventadas – A infância"]

sexta-feira, 26 de março de 2010

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

[Carlos Drummond de Andrade]

domingo, 21 de março de 2010

Para os que Virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
( Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Thiago de Mello

quarta-feira, 17 de março de 2010

Pensamentos




Às vezes eu fico pensando em como nós e o todo o resto da humanidade chegamos a este estágio evolutivo atual. O que tento refletir não diz respeito à evolução nos termos da teoria de Charles Darwin, que por acaso completou duzentos anos em 2009, mas sim sobre os paradoxos presentes na progressão do nosso entendimento de mundo e das nossas relações humanas ao longo da História. Claro que eu falo sem conhecimento específico de causa, já que sou um estudante de Engenharia, e não de História ou Sociologia, que são áreas que tratam a questão de forma mais profunda. Entretanto, esse é um tema que me intriga.

São vários os aspectos que me impressionam. Por exemplo, é difícil ter uma noção do quanto a arte, a ciência e a tecnologia evoluíram ao longo dos tempos. No entanto, é fácil de perceber que apenas uma pequena parte da população mundial tem acesso a este progresso. Em plena “Era da Informação”, aproximadamente um terço da humanidade ainda tem que sobreviver com a preocupação de conseguir suprir diariamente algumas condições básicas de subsistência, como comida e água potável. Em outras palavras, estas pessoas são forçadas a viver na "época das cavernas". A miséria ainda triunfa sobre o território de muitas nações. E, no geral, não há tom efetivo de preocupação com a extrema pobreza de alguns. Na verdade, na medida em que vamos formando nosso senso sobre a vida, tudo fica muito natural e existir miséria no mundo é um pensamento tão espantoso como existir gripe, por exemplo. Talvez este seja também o resultado da crença de que qualquer pessoa, no nosso sistema econômico, tem liberdade para melhorar suas condições de vida, desde que se empenhe neste projeto. Assim a responsabilidade passa unicamente para as mãos do indivíduo. Nada disso nos soa estranho. Entretanto, se imaginarmos uma criança vivendo numa pequena aldeia na África, sem o mínimo necessário para a própria subsistência, é meio absurdo pensar que, desde que ela “se empenhe” no futuro, as condições em que vive melhorarão.

Outro fato interessante de ser notado é o progressivo aumento da exploração dos recursos naturais do planeta. Mesmo sendo uma causa inconciliável, a necessidade de manter uma economia em crescente desenvolvimento e a limitação dos recursos naturais, pouco se nota nos governos pelo mundo a disposição em adotar medidas efetivamente atuantes, em vista a promover a mudança mais que necessária para modelos sustentáveis de desenvolvimento. Situação análoga ocorre com relação às mudanças climáticas. As consequências do aquecimento global para o clima da Terra já vem sendo cientificamente estudadas e estimadas há anos e também se arrastam por igual período os debates, bem como os fracassos, para se buscar um acordo global de redução de emissões dos gases de efeito estufa.

Apesar das facilidades que a irrefreável guinada da tecnologia vem prometendo a cada novo produto lançado no mercado e da consolidação da “Era da Informação”, o que se faz prevalecer para a maioria da população é a desinformação e a subjugação a condições de vida cada vez mais duras, um fenômeno que parece ambíguo em muitos aspectos. Neste cenário não é surpresa que a educação e, desse modo, a formação da consciência crítica de cada um estejam diretamente condicionadas à lógica do processo de produção e consumo. Será o avanço da tecnologia o responsável? Creio que não seja assim tão simples a resposta, embora essa seja a ideia de muita gente.

Dentre os desafios que a humanidade está enxergando, cada vez mais urgentes de solução, com certeza estão o da adoção de um modelo socioeconômico que possa ser compatível com, e que traga, um cenário de menor desigualdade social e de sustentabilidade. Esse é um pensamento que pode até parecer utópico agora, entretanto qualquer análise lógica dos fatos conclui a mesma coisa. É apenas uma questão de tempo até que fatores, principalmente as mudanças climáticas, comecem a prejudicar de forma impactante os interesses econômicos de diversos países. A partir do momento em que as perdas afetarem o lucro das grandes empresas, haverá uma maior pressão política no sentido do estabelecimento de leis que obriguem a adoção de mecanismos de produção sustentáveis. Necessariamente também surgirão mecanismos para o controle do crescimento populacional mundial, que só poderão funcionar se vierem acompanhados de melhorias sociais para as populações dos países em desenvolvimento. Entretanto, o grande dilema é: Não é possível saber se as mudanças virão no tempo hábil.


Edson Porto da Silva,

Graduando do curso de Engenharia Elétrica
Universidade Federal de Campina Grande - UFCG

domingo, 14 de março de 2010

Uma didática da invenção - XXI














Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais ou
no Viterbo -
A fim de consertar a minha ignorãça,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
- Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
- Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
Ou no verso das folhinhas:
- Conhece-te a ti mesmo.
Ou na boca do povinho:
- Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco
Etc
Etc
Etc
Maior que o infinito é a encomenda.

Manoel de Barros

sábado, 13 de março de 2010

Um pouco da história da Astronomia


O surgimento e a evolução de alguns ramos da ciência, no decorrer da História, muitas vezes estão diretamente relacionados com a quebra de paradigmas de diferentes características. Tais paradigmas podem ter raízes profundas no contexto social e cultural, de modo que a mudança de perspectiva proposta pelo conhecimento científico pode não ser aceita de imediato, ignorada ou mesmo ser rigidamente rechaçada. A astronomia faz parte desse conjunto de ciências cuja evolução levou a humanidade, em particular, o ocidente, a difíceis transições de ideias.


Embora tenha sido um grande avanço para as civilizações clássicas, a passagem da visão mítica dos fenômenos astronômicos para outra de cunho racional esbarrou nas limitações científicas e tecnológicas da época. Estas limitações também se refletiram nos conceitos adotados em períodos históricos subsequentes, em particular, no intervalo que engloba a Idade Média.


Assim como ocorreu com diferentes ramos do conhecimento na Europa medieval, a astronomia teve seu período de estagnação. O modelo de Universo que até então era tido como verdadeiro era o modelo geocêntrico de Claudio Ptolomeu, astrônomo de Alexandria do séc. II dC. O modelo de Ptolomeu admitia a Terra como centro do Universo; em torno dela, o Sol e os demais planetas girariam. Para adequar seu modelo ao movimento aparente observado de alguns planetas, Ptolomeu introduziu o conceito de epiciclo, ou pequeno ciclo, argumentando que cada planeta movia-se num ciclo cujo centro descrevia a órbita circular principal do astro em torno da Terra.

Conquanto fosse errôneo, esse modelo casava com as concepções aristotélicas e com os dogmas da Igreja Católica, fatores estes que influenciaram profundamente o pensamento medieval. Isto contribuiu para a aceitação do trabalho de Ptolomeu por mais de 1000 anos.


Com o fim da Idade Média, aos poucos o ambiente cultural foi-se modificando, vindo a culminar no Renascimento. Este processo resultou na substituição dos dogmas religiosos pelo conhecimento analítico, como guias de compreensão da realidade. Naturalmente, algumas ciências surgiram e outras retomaram seu processo de desenvolvimento. Dentro desse contexto, o primeiro grande desafio posto à astronomia foi o abandono do geocentrismo.


O primeiro grande nome da astronomia que surge nessa época é o do monge polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). Copérnico foi o primeiro astrônomo a publicar uma obra, De revolutionibus orbium coelestium ("Da revolução de esferas celestes"), na qual as concepções do modelo geocêntrico eram abandonadas em favor do modelo heliocêntrico. Ou seja, ele foi o primeiro a argumentar que os planetas orbitavam em torno do Sol, e não da Terra.


Imagine o pensamento de um indivíduo do período pré-renascença, extremamente voltado para os dogmas religiosos cristãos, levando a crença, arraigada por gerações, de que a Terra sempre permaneceu estática como o centro do Universo e de toda criação divina, que tem o homem como protagonista principal. Agora, de uma hora para outra, o mesmo indivíduo recebe a notícia de que, na verdade, a terra não é mais o centro de tudo que existe, nem tampouco é estática, mas caminha numa órbita circular em torno do Sol. Deve ter sido um choque e tanto. Mais complicada ainda era a situação do clero católico, querendo manter a todo custo sua estrutura de poder e as bases da fé e se deparando com uma possível deflagração de ideias que contradiziam outras já consagradas nas escrituras.


Tão forte era o impacto que as afirmações de Copérnico poderiam causar no pensamento da época e quão graves seriam as consequências a que este estaria sujeito por divulgar semelhantes concepções, que estas só vieram a ser publicadas no ano de sua morte. Conquanto Copérnico tenha dado explicações corretas sobre fenômenos naturais, como as estações do ano e os equinócios, devido ao fato de suas convicções serem produto de observações dos astros feitas a olho nu, não possibilitando qualquer demonstração de hipótese alguma, sua teoria não foi aceita com muita credibilidade por alguns de seus colegas contemporâneos. No entanto, o trabalho copernicano foi a semente que influenciou grandes contribuições feitas posteriormente por outros cientistas, entre eles, Galileu Galilei, Johannes Kepler e Isaac Newton. Pela radical mudança de padrões promovida por seu trabalho, Nicolau Copérnico é considerado o pai da astronomia moderna.

Edson Porto da Silva,

Graduando do curso de Engenharia Elétrica
Integrante do Grupo PET-Elétrica
Universidade Federal de Campina Grande - UFCG
Ramo Estudantil IEEE UFCG

http://www.dee.ufcg.edu.br/~pet/jornal/materias.html

sexta-feira, 12 de março de 2010

Descarte de pilhas e baterias


Devido à quantidade de aparelhos eletrônicos que passaram a fazer parte do nosso dia-a-dia, o consumo de diversos tipos de pilhas e baterias é inevitável. Entretanto, o que em geral muitas pessoas desconhecem ou ignoram é o fato de que o descarte destes produtos pode acarretar sérios danos ambientais, caso seja feito de maneira inadequada. Estes produtos trazem em sua composição diversas substâncias tóxicas (por exemplo, mercúrio, chumbo, cobre, zinco, cádmio, manganês, níquel e lítio) que possuem um alto potencial de contaminação do solo e dos mananciais. Dentre esses metais os que apresentam maior perigo à saúde humana são o chumbo, o mercúrio e o cádmio.

Mas, então o que fazer? É dúvida comum o que deve ser feito com uma pilha, ou bateria de celular, por exemplo, quando é chegado o fim da sua vida útil. Comumente, ou as pessoas guardam em casa, por não saberem como proceder, ou jogam o material em meio ao lixo comum, não se importando com, ou desconhecendo, os riscos ambientais que este ato pode trazer. Como na maioria destas situações, a melhor alternativa para lidar com esse problema é procurar informação.

Desde julho de 2000, está em vigor no Brasil uma norma do Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA (Resolução Nº 257 de 30 de junho de 1999) que atribui aos fabricantes a responsabilidade sobre o material tóxico que produzem. Então, o problema é dos fabricantes? De forma alguma, como consumidores nós temos tanta responsabilidade quanto os mesmos. A resolução estabelece que tipo de material pode ser descartado diretamente pelo lixo doméstico e também aqueles que necessitam de tratamento especial. Alguns produtos disponíveis no mercado já atendem às normas de segurança, podendo ser jogados normalmente no lixo. No caso das pilhas, a embalagem do produto deve trazer a informação de que é, ou não, necessário devolvê-las ao fabricante para serem recicladas. Para as baterias de celular e telefone sem fio, as empresas fabricantes devem informar no manual a forma correta de descarte. As baterias de níquel-cádmio (Ni-Cd) não devem ser jogadas no lixo e sim devolvidas ao seu fabricante. Para tanto, deve-se entrar em contato com o mesmo para saber que procedimentos adotar. A resolução estabelece ainda que os revendedores e a assistência técnica autorizada também devem receber o material usado e, em seguida, repassá-lo aos fabricantes ou importadores.

Apesar de o lixo doméstico ser uma alternativa possível em alguns casos, uma vez que toda pilha ou bateria contém metais pesados, mesmo que em mínimas quantidades, a forma mais apropriada de descarte seria entregá-las, posteriormente ao seu esgotamento energético, aos estabelecimentos que as comercializam ou à rede de assistência técnica autorizada pelas indústrias. Outra opção são postos de coleta que recebem esses materiais e os encaminham para reciclagem.

Edson Porto da Silva,

Graduando do curso de Engenharia Elétrica
Integrante do Grupo PET-Elétrica
Universidade Federal de Campina Grande - UFCG
Ramo Estudantil IEEE UFCG

http://www.dee.ufcg.edu.br/~pet/jornal/materias.html

quarta-feira, 10 de março de 2010

"Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição
se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para
se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e
pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham
comparecendo, lá se levantava enorme igreja, não havia mais
crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus,
dado logo, até à hora de cada uma morte cantar. Raciocinei isso
com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça:

-- Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho - ciente me respondeu. "


[João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas]

segunda-feira, 8 de março de 2010

O Universo não é uma idéia minha

























O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

[Alberto Caeiro, Fernando Pessoa]

quinta-feira, 4 de março de 2010

Quem matou Aparecida

História de uma favelada
que ateou fogo às vestes


Aparecida, esta moça
cuja história vou contar,
não teve glória nem fama
de que se possa falar.
Não teve nome distinto:
criança brincou na lama,
fez-se moça sem ter cama,
nasceu na Praia do Pinto,
morreu no mesmo lugar.

Praia do Pinto é favela
que fica atrás do Leblon.
O povo que mora nela
é tão pobre quanto bom:
cozinha sem ter panela,
namora sem ter janela,
tem por escola a miséria
e a paciência por dom.

No dia que a paciência
do favelado acabar,
que ele ganhar consciência
para se unir e lutar,
seu filho terá comida
e escola para estudar.
Terá água, terá roupa,
terá casa pra morar.
No dia que o favelado
resolver se libertar.

Mas a nossa Aparecida
chegou cedo por demais,
por isso perdeu a vida
que ninguém lhe dará mais.
É sua história esquecida
de poucos meses atrás,
e essa vida perdida
de uma moça sem cartaz
que está aqui pra ser lida
porque nela está contida
a lição que aprenderás.

Já bem cedo Aparecida
trabalhava pra comer:
vendia os bolos que a mãe
fazia pra ela vender;
carregava baldes d'água
para banhar e beber.
Comida pouca e água suja
que até dá raiva dizer.

Da porta de seu barraco,
de zinco e madeira velha,
olhava o mundo dos ricos
com suas casas de telha.
Os blocos de apartamento
quase tocando no céu
dos quais nem em pensamento
um deles seria seu.

Daquele chão de monturo,
via o mundo dividido:
Do lado de cá, escuro,
e do lado de lá, colorido.
À sua volta a pobreza,
a fome, a doença, a morte;
e ali adiante a riqueza
dos que tinham melhor sorte.
Nossa Aparecida achava
que tinha era dado azar
porque ela ignorava
que o mundo pode mudar.

Já conhecia a cidade
da gente limpa e bonita,
meninas de sua idade
de seda e laço de fita.
Gente que anda de carro,
vive em boate e cinema,
que nunca pisou no barro,
que não conhece problema,
que pensa que o Rio é mesmo
Copacabana e Ipanema.

Que pensa ou finge pensar.
Porque se chega à janela,
se dá um giro, vê logo
o casario da favela,
a marca mais evidente
desta sociedade ingrata,
que a terça parte do Rio
mora em barracos de lata.

E assim foi que Aparecida
se tornou uma mocinha.
Falou pra mãe que queria
ganhar uma criancinha.
Já que boneca era caro
e dinheiro ela não tinha,
ter um filho era mais fácil
dela conseguir sozinha.

"Sozinha ninguém consegue!",
disse-lhe a mãe já com medo.
"Tira isso da cabeça,
ter filho não é brinquedo.
Favelada que tem filho
acaba a vida mais cedo".

Não podia Aparecida
entender essa verdade.
Queria ter um bebê
para cuidar com bondade,
para vestir bonitinho
como os que viu na cidade.

Tanto falou no desejo
de ter uma criancinha
que um dia uma lavadeira
que era sua vizinha
prometeu falar na casa
de um tal de dr. Vinhas,
casado com dona Rosa,
que ganhara uma filhinha.

Foi assim que Aparecida
mudou-se para Ipanema.
O ordenado era pouco
mas resolvia o problema.
Deixou a Praia do Pinto
e venceu o seu dilema:
ganhou um bebê bonito
cheirando a talco e alfazema.
Quando saiu com o embrulho
(dois vestidos e um espelho
redondo, de propaganda)
a mãe lhe deu um conselho:
"Veja lá por onde anda.
Cuidado com homem velho
e português de quiranda.
Pra rico é fácil ter filho;
pra pobre, a vida desanda".

Mas Aparecida estava
entregue a sua alegria.
Só pensava na menina
de que ela cuidaria,
a boneca de verdade
que ela enfim ganharia.
E assim passou cantando
aquele primeiro dia.

Foi muito bem recebida
pela patroa e o patrão.
Ganhou um quarto pequeno
e uma cama de colchão.
Quarto escuro, colchão duro,
mas como querer melhor
quem sempre dormiu no chão?

A vida de Aparecida
corria tranquila e bela.
Ainda por cima seu Vinhas
simpatizava com ela,
indagava de sua vida
e das coisas da favela.

Um dia pegou-lhe o braço
e puxou-a para si.
Lhe disse: "Me dá um abraço,
que eu gosto muito de ti".
Largou-a ao ouvir os passos
de alguém que vinha pra ali.

Mas de noite ele voltou.
Deitou-se ao lado dela
e ela não se incomodou.
Passou a mão nos seus peitos,
e Aparecida gostou.
Deitou-se por cima dela
e suas calças tirou.
Aparecida nem lembra
o que depois se passou.
E tanto se repetiu
que ela até se habituou.

Mas lá um dia a patroa
abriu a porta e os pegou.
Já era de manhã cedo,
Vinhas quase desmaiou.
A mulher fez que não viu,
tranuilamente falou:
"Compre-me um litro de leite,
pois o leiteiro atrasou".

Aparecida saiu
sem saber o que fazer.
Quando voltou, no seu quarto
tinha coisa pra se ver:
a patroa já chamara
um guarda para a prender.
"Ela roubou estas jóias,
que nem bem soube esconder" -
disse mentindo a patroa.
Aparecida foi presa
sem nada poder dizer.

Para o SAM foi conduzida
depois de muito apanhar.
Um dia ali esquecida
começou a reparar
que em sua entranha uma vida
começara a despertar.
Quando o guarda da prisão
descobriu-lhe a gravidez,
foi dizer à Direção,
que a retirou do xadrez
para evitar complicação.
"Vá se embora, sua puta,
chega de aporrinhação".

Aparecida voltou
pro barraco da favela.
A mãe estava doente
sem saber notícia dela.
Cuidou da mãe como pôde
e conseguiu se empregar.
Trabalhou até que um dia
numa fila de feijão
perdeu as forças, caiu,
e teve o filho no chão.
Da casa onde trabalhava
logo foi mandada embora.
"Empregada que tem filho
não serve, que filho chora".

Em outras casas bateu
mas de nada adiantou.
Depois de muito vagar,
pra casa da mãe voltou.
Mas o problema da fome
assim não solucionou.
Não teve outra saída:
na prostituição entrou.

Ficava noites inteiras
rodando pelo Leblon
para apanhar rapazinhos
que sempre pagavam algum
e que não tinham o bastante
pra frequentar o bas-fond.

Até que um dia encontrou
um rapaz que gostou dela
que se chamava Simão
e morava na favela.
Decidiram viver juntos
e a vida ficou mais bela.

Bela como pode ser
a vida de um favelado
morando em cima da lama
num barraco esburacado
trabalhando noite e dia
por um mísero ordenado.

Mas Simão e Aparecida
um ao outro se ampararam.
Com as durezas da favela
de há muito se habituaram:
uniram suas duas vidas
e depressa se gostaram.

Ela lavava pra fora
e cuidava do filhinho
que, de mal alimentado,
era magro e doentinho
mas que dela merecia
todo desvelo e carinho.

Simão, que era operário,
trabalhava numa usina.
Gastava sua mocidade
numa soturna oficina
onde o serviço é pesado
e o dia nunca termina.
Mas o amor de Aparecida
viera abrandar-lhe a sina.

Simão ganhava tão pouco
que mal dava pra comer,
menos que o salário mínimo
que está na lei pra inglês ver...
Nem sempre tinha jantar
nem o que dar de beber
ao menino que chorava
sem poder adormecer.

Aparecida e Simão
deitados ali do lado
ouviam o choro do filho
fraquinho e desesperado
que já no berço sentia
o peso cruel e injusto
desse mundo desgraçado.

E eis que um dia Simão
participou de uma greve.
Veio a noite e Aparecida
dele notícia não teve.
Os companheiros disseram
que a policia o deteve.
Ela correu à polícia
mas ali nada obteve.

Voltou chorando pra casa
sem saber o que fazer.
Debruçada na janela
viu o dia amanhecer:
um dia claro mas triste
como se fosse chover.

Sentia-se desemparada
naquela casa vazia.
Por que duravam tão pouco
suas horas de alegria?
Se Simão não mais voltasse
o que é que ela faria?

Esperou que ele voltasse.
Os dias passaram em vão.
O menino já chorava
sem ter alimentação.
Ela já nem escutava
tamanha a sua aflição.

Quase imóvel, dia e noite,
ficou assim na janela
à espera de que Simão
voltasse outra vez pra ela
fazendo o seu coração
sentir que a vida era bela,
por pouco que fosse o pão,
triste que fosse a favela.

Quanto tempo se passara?
Quanto dia se apagou?
Até o menino calara,
até o vento parou.
Aparecida repara
que alguma coisa acabou.

Era uma coisa tão clara
que ela própria se assustou.
Por que calara o menino?
Que mão nova o afagou?
E sobre o corpinho inerte
chorando ela se atirou...

Chamava-se Aparecida
e chorava ali sozinha.
Mal chegara aos 15 anos
a idade que ela tinha.
Chorava o seu filho morto
e a sua vida mesquinha.
Uma criança chorando
sobre outra criancinha.

Fpi assim que Aparecida
sem pensar e sem saber
derramou álcool na roupa
pra logo o fogo acender.
E feito uma tocha humana
foi pela rua a correr
gritando de dor e medo
para adiante morrer.

Acaba aqui a história
dessa moça sem cartaz
que ficaria esquecida
como todas as demais
histórias de gente humilde
que noticiam os jornais.
Pra concluir te pergunto:
Quem matou Aparecida?
Quem foi que armou seu braço
pra dar cabo da vida?
Foi ela que escolheu isso
ou a isso foi conduzida?
Se a vida a conduziu
quem conduziu sua vida?

Por que existem favelas?
Por que há ricos e pobres?
Por que uns moram na lama
e outros vivem como nobres?
Só te pergunto estas coisas
para ver se tu descobres.

Se não descobres te digo
para que possas saber:
o mundo assim dividido
não pode permanecer.
Foi esse mundo que mata
uma criança ao nascer,
que negou à Aparecida
o direito de viver.
Quem ateou fogo às vestes
dessa menina infeliz
foi esse mundo sinistro
que ela nem fez nem quis
- que deve ser destruído
pro povo viver feliz.


Ferreira Gullar

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tercetos de amor

§ Só agora aprendi
que amar é ter e reter.
Foi quando te vi.

§ Vi quando a rosa se abriu.
Como a eternidade
pode ser tão fugaz?

§ Não sei quando é o mar,
ou se é o sol dos teus cabelos.
Tudo são funduras.

§ Na entressombra, o sabre
se estira na relva morna.
O nenúfar se abre.

§ Brilha um dorso: és tu.
Encontro no teu ventre
a explicação da luz.

[Thiago de Mello]