quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O desastre ecológico e a ideologia moderna


"Devemos voltar a pensar a sociedade não contra a natureza, mas com ela; e a natureza como sendo - ela mesma - um sujeito dotado de humanidade". Este é um dos trechos mais belos e contundentes da palestra do antropólogo Roberto DaMatta

"O que pode dizer um antropólogo social, um especialista em sociologia comparativa, em sociedades tribais e sociedade brasileira sobre um tema tão vasto, quanto especializado?

Não sendo um conhecedor de matéria ecológica, canalizei a minha fala para o que eu vejo como a implicação cultural, moral, ideológica ou social mais significativa do desastre ecológico mais que anunciado para a modernidade. Mais precisamente, para os valores que se enfeixam naquilo que podemos chamar de "ideologia moderna". E, num sentido mais preciso, para essa ideologia no limiar de um novo século e milênio, pois, pela primeira vez, essa ideologia, cujo centro é o individualismo como doutrina e valor, vê-se obrigada a enfrentar o seu contrário: os seus limites, as fronteiras diante das quais ela agora vislumbra (a contra-gosto) o final de um mundo infinito. De fato, vejam o contraste.

O século XVIII foi o momentoso tempo das Luzes. Das iluminações que aclararam a consciência humana, consolidando a perspectiva científica do mundo quando descobriu as "leis imutáveis" da natureza e, por meio delas, as previsões que foram tão básicas na fabricação dessas máquinas que ampliaram e prolongaram os nossos sentidos e o nosso corpo. O século do Iluminismo foi, também, a ocasião na qual a escuridão da magia e da superstição teriam sido desbancadas pela luminosa aplicação da ciência natural aos costumes e valores sociais. Esse foi o momento no qual uma nova postura diante do mundo tomou um impulso inusitado, graças a postulação da idéia de uma natureza humana duplamente independente. De um lado, de Deus; do outro, de uma natureza inteiramente diferenciada da sociedade.

Domínio inesgotável, a ser infinitamente explorado pelas novas técnicas que eram o fruto concreto das idéias científicas e que foram responsáveis por um conjunto de extraordinárias transformações materiais e morais no seio da sociedade. Agora, existia natureza e sociedade e, na sociedade, religião e política eram esferas separadas. Um dos resultados do Iluminismo foi a idéia de que o Paraíso poderia ser construído neste mundo e não mais encontrado após a morte num outro mundo. Foi essa idéia fundamental que, como demonstrou Weber, fez com que fossem liberadas todas as energias sociais com o advento e a hegemonia do Calvinismo, como responsável pelo quadro de valores do capitalismo e do mundo por ele criado.

O século XIX e o XX deram seguimento, aprofundando e consolidando essas novas perspectivas no plano político e social. Não preciso lembrar que foi esse período que consolidou e tornou popular, senão trivial, a idéia de modernidade e, com ela, a de que os indivíduos poderiam romper com o todo (a sociedade) de modo a fazer valer os seus interesses, obter justiça ou alcançar a felicidade essa base da noção ocidental de revolução.

Este foi o momento em que aplicou-se à sociedade aquilo que se havia descoberto pelo estudo da natureza. O resultado acumulado apesar de todos os seus desastres e tragédias (autoritarismo, comunismo, fascismo, racismo e holocausto, provas de que planejamento racional do futuro seria possível e conseqüências da racionalidade da qual resultava esse planejamento) persistia. Havia um elo de continuidade dentro do quadro de valores do Ocidente iluminado pelo Iluminismo, que atravessou todos os experimentos sociais e políticos, tanto do século XIX quanto do século passado.

Deste modo, apesar de todos os problemas e tragédias, as idéias de progresso baseado no desenvolvimento tecnológico, de evolução linear fundada no conflito, de transformação baseada no crescimento quantitativo, mais do que qualitativo, persistiram e continuaram alimentando o ethos e uma atmosfera de otimismo que se repetia: claro, tivemos guerras! Claro, tivemos múltiplos etnocídios! Claro, tivemos miséria e decepções!...

Mas há, em toda essa nossa trajetória, um conjunto de inegáveis conquistas que justificam um otimismo e um progresso, os quais, num sentido profundo, nos davam a certeza de sermos os senhores do universo; os patrões absolutos do planeta. O HOMEM (homem mesmo, entidade masculina, branca, falante de inglês, francês ou alemão; que engloba a mulher, a criança, o "primitivo" e o velho), é mesmo o ser para o qual tudo seja pela vontade divina ou pela força do materialismo cientifico, dialético e certamente transcendental convergiu.

Para quem, como eu, nasceu nos anos 30 e foi um leitor embalado pelo otimismo progressista e pela engenhosidade utilitária mágica de Julio Verne, o século 21 era o futuro. Tudo o que li e me foi prometido iria ocorrer neste famoso milênio recém-inaugurado. Daí, talvez, o medo do terrível, do velho aforismo admoestatório: "de mil passarás, mas a dois mil não chegarás!", que uma vez ouvi de uma professora religiosa e severa, moto que, no seu pessimismo milenarista, esvaziava as grandes promessas do novo século.

Mas o século passou e as crises anunciadas, como a de uma Terceira Guerra Mundial se desfizeram. Desapareceu o Dr. Strangelove e, com ele, as promessas de uma inevitável conversão ao socialismo totalitário. Realmente, em vez do triunfo de uma sociedade finalmente administrada pela racionalidade do princípio segundo o qual, cada homem de acordo com suas necessidades, o que testemunhamos foi um tremendo desmascaramento orweliano. Desmanchou-se a União Soviética; descobrimos os horrores do Stalinismo e do Maoismo; e, pior que isso, emergiram como potências nações orientais que, na imaginação Iluminista, jamais seriam capazes de dominar a racionalidade necessária ao comando da indústria e da comunicação em larga escala. Os perdedores da Segunda Guerra Mundial o Japão e a Alemanha foram os grandes vencedores. Em seguida, o socialismo burocrático e da nomenclatura, caiu com o Muro de Berlim.

E, no final das contas e no limiar do milênio, quem deu um novo e inesperado formato na geopolítica planetária não foi nenhuma das revoluções anunciadas, como a energia nuclear, mas a da informática e dos meios de comunicação, que permitiu uma imprevista globalização financeira tocada pelo consumismo fanático, ao lado de eis outra dimensão impensável pela racionalidade materialista e utilitária um messianismo Islâmico igualmente não antecipado. Tudo isso tendo, como cenário, o dado maior deste mágico 2007: a descoberta e a plena consciência de que o planeta, e não apenas uma ou duas de suas regiões, corria o risco de destruição.

Para quem imaginava o século 21 como o marco das utopias, como o momento em que as doenças, a pobreza, o fanatismo e, até mesmo, a morte seriam finalmente derrotados, esses cruzamentos computarizados de extrema pobreza, extremada violência, doença e fome na África, no Haiti e no Brasil, com obesa abundância e o consumismo desenfreado nos Estados Unidos e na Europa ocidental, assombram.

Eis um novo século e um novo milênio no qual, em vez de um esperado e inevitável otimismo, temos o justo oposto. Um milenarismo às avessas: uma cruzada, não mais para implementar o progresso baseado na exploração brutal e contínua da natureza, mas para a dura e assustadora tomada de consciência de que a tal "natureza" também tem um limite. Que, sendo tão viva quanto nós, ela também tem um ciclo vital.

Tal consciência nos leva e esse é um tema básico para a reflexão do Planeta Sustentável a uma imediata e necessária reformulação, não só das agressões aos recursos naturais como objetos passivos e inermes, mas da velha e fundamental dualidade entre natureza e cultura; entre animais e homens para que se possa efetivamente salvar o planeta e, com ele (isso ninguém diz), salvar a humanidade! Ou seja, a ideologia individualista que nos controla debaixo do epíteto chamado "ideologia moderna" tem, hoje, que se haver com os efeitos de suas postulações. Com as conseqüências inesperadas e, como dizia Weber, não previstas de seus atos que, sempre implicam, como sabemos mas não gostamos de aquilatar, outras pessoas, grupos, sociedades, bem como os seus próprios limites. No mercado, o preço e o lucro (ou o prejuízo) são os limites; na vida social, o limite é a consciência da interdependência entre sistemas, é o resultado irracional que transforma a razão utilitária (obter lucro, ganhar competitividade, ser o melhor, etc...) em máquinas de destruição.

Em outras palavras, devemos voltar a escutar, como faziam nossos antepassados e como fazem os nossos índios e os "primitivos" em geral, os animais. Devemos voltar a pensar a sociedade não contra a natureza, mas com ela; e a natureza como sendo ela mesma um sujeito dotado de humanidade. Talvez, depois de termos incessantemente naturalizado a sociedade através da crença na superioridade inata (natural e biológica) de certos grupos sobre outros, de termos justificado certas leis, práticas e costumes como sendo mais adequados, porque seriam mais próximos da essência do DNA humano, tenha chegado o momento de pensar igualmente na humanização da sociedade. Numa visada pela qual se possa ultrapassar os limites da grande divisão entre natureza e cultura para que se possa ter um planeta capaz de sustentação. Essa sustentabilidade que obriga ouvir os animais, as plantas e, sobretudo, aqueles que, melhor que ninguém, vivem esse equilíbrio entre seus valores e os da natureza porque, entre eles, a natureza integrada na sociedade (ou atropomorfizada) não é uma inimiga, mas faz parte de seus códigos e linguagens.

O desastre ecológico reintroduz, no horizonte moderno, o limite para a tese de que a sociedade é o resultado de um contrato exclusivo entre indivíduos livres e exige repensar a prática da reciprocidade e da mutualidade entre pessoas e grupos e entre convenções e natureza. As brutais conseqüências de um estilo utilitário e comercial de exploração da natureza forçam-nos a reaprender a interdependência entre animais, montanhas, flores, florestas e sociedades. Como os primitivos, a humanidade pós-devastação ecológica (se houver uma), deverá incluir, não apenas "homens", mas, também, animais e espécies naturais todos como cidadãos, senão como irmãos em sua nova cosmologia. Como peças básicas, complementares e interdependentes, naquilo que antigamente se chamava de "grande cadeia dos seres".

Quem, no século passado, teria sido capaz de prever essa embrulhada brasileira de uma vida urbana, afinal cosmopolita majoritária, democraticamente popular, mas sem a menor segurança, limite e civilidade? Quem poderia antever esse nosso mundo inflado de atrações mas, ao mesmo tempo, assolado pela incúria administrativa e pela mendacidade política como valor? Se o século 20 acabou com Deus, como é que hoje vivemos tantas guerras religiosas? Como é que a previsão de um século 21 paradisíaco, terminou nessa enorme lista de violência, de conflitos insolúveis e de tanta dor, perda e sofrimento?

Cá estamos diante do sétimo ano do novo século e o que aparece diante de nós é o mais desolador prognóstico de destruição.

O bicho-homem, a espécie sem especificidade porque destituída de natureza, de programa geral e de instinto; o macaco nu onívoro, inventor da roda, da música, da piedade e da bomba atômica que começou ceifando o mato em torno de suas cabanas e, tendo construído a "aldeia global", tem também liquidado o planeta por meio de uma exploração impiedosa de todos os seus domínios.

A Terra, antes tomada como mãe generosa pelo pensamento desdenhado como primitivo e mágico, foi finalmente modernizada. Ela é, agora, a propriedade privada de estados nacionais (com suas novas magias de soberania nacional) e de companhias multinacionais (com seus índices sagrados de crescimento que rendem extraordinários e igualmente mágicos rendimentos). Finalmente, o pensamento racional, embutido no mercado e na configuração individualista que molda nossas sociedades, deu-nos a liberdade.

Enfim, o senhor do mundo, aquele que vivia à mercê dos deuses e que foi feito à imagem e semelhança do Criador conseguiu viva! liberar-se de si mesmo e das coerções morais que se manifestam nos resultados de suas ações. Tudo o que lhe havia tolhido a existência da felicidade individual foi colocado entre aspas.

Livre para amar tanto o caos (e a morte), quanto a ordem, o senhor do mundo vai finalmente consumar o seu maior feito: a destruição do próprio planeta. Do nicho onde vive, da Terra-mãe que o sustentou e lhe viu nascer, do cenário onde desempenhou tantos papéis, lutou tantas batalhas, gozou e sofreu em tantas realizações, viveu e morreu em tantas tragédias.

O que os oráculos anunciam em 2007 não é simplesmente que "o político X vai morrer", que quem é de Touro vai ter um grande ano ou que a Mariazinha vai encontrar um grande amor. É, puxa a vida, o fim do planeta!

Graças a um consumismo estabelecido como religião, a nave na qual o Homem Iluminado tem navegado pelo infinito do Universo, está sucumbindo. E como que para aumentar sua glória e abrilhantar, como uma valsa de Johan Strauss, a sua capacidade destrutiva, o fim do planeta não resulta de um conflito lógico entre blocos representativos do Bem ou do Mal, da Liberdade e da Submissão, ou do "nosso" Deus e do "deles". Resulta precisamente da hegemonia da parte sobre o todo, dos atores sobre a peça, do padre sobre a missa, da palavra sobre o texto.

Essas são as preocupações que queria compartilhar com vocês. A ideologia moderna, baseada num individualismo feroz e brutal, contido frequentemente pela polícia, terá que ser inevitavelmente disciplinada e, no limite, transformada, não por algum sinistro coletivismo fascista, mas pelo seu alcance planetário, pela sua imensa capacidade destrutiva, pela tecnologia e pelo consumismo que ela própria engendrou.

Se fui otimista, peço desculpas. Se admoestei, fico feliz porque foi minha intenção dizer que o desastre ecológico nada mais é do que o final de uma peça onde o Autor deseja não somente envolver o público, mas também destruir os cenários, o palco, o teatro e a cidade que o abriga. Afinal, o que o desastre ecológico nos lembra é que, se o mundo não tem um texto, como gostam de afirmar os modernos, ele tem sim, como a morte, um limite."

Roberto da Matta

http://planetasustentavel.abril.com.br/

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