domingo, 24 de janeiro de 2010

O Fotógrafo

















Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Por fim, eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski - seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.


[Manoel de Barros, Ensaios fotográficos]

sábado, 23 de janeiro de 2010

Canção do Amor Imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos…

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita…

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

[Mario Quintana]

Uma nordestina














Ela é uma pessoa
no mundo nascida.
Como toda pessoa
é dona da vida.

Não importa a roupa
de que está vestida.
Não importa a alma
aberta em ferida.
Ela é uma pessoa
e nada a fará
desistir da vida.
Nem o sol do inferno
a terra ressequida
a falta de amor
a falta de comida.
É mulher é mãe:
rainha da vida.

De pés na poeira
de trapos vestida
é uma rainha
e parece mendiga:
a pedir esmolas
a fome a obriga.

Algo está errado
nesta nossa vida:
ela é uma rainha
e não há quem diga.

Ferreira Gullar

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O desastre ecológico e a ideologia moderna


"Devemos voltar a pensar a sociedade não contra a natureza, mas com ela; e a natureza como sendo - ela mesma - um sujeito dotado de humanidade". Este é um dos trechos mais belos e contundentes da palestra do antropólogo Roberto DaMatta

"O que pode dizer um antropólogo social, um especialista em sociologia comparativa, em sociedades tribais e sociedade brasileira sobre um tema tão vasto, quanto especializado?

Não sendo um conhecedor de matéria ecológica, canalizei a minha fala para o que eu vejo como a implicação cultural, moral, ideológica ou social mais significativa do desastre ecológico mais que anunciado para a modernidade. Mais precisamente, para os valores que se enfeixam naquilo que podemos chamar de "ideologia moderna". E, num sentido mais preciso, para essa ideologia no limiar de um novo século e milênio, pois, pela primeira vez, essa ideologia, cujo centro é o individualismo como doutrina e valor, vê-se obrigada a enfrentar o seu contrário: os seus limites, as fronteiras diante das quais ela agora vislumbra (a contra-gosto) o final de um mundo infinito. De fato, vejam o contraste.

O século XVIII foi o momentoso tempo das Luzes. Das iluminações que aclararam a consciência humana, consolidando a perspectiva científica do mundo quando descobriu as "leis imutáveis" da natureza e, por meio delas, as previsões que foram tão básicas na fabricação dessas máquinas que ampliaram e prolongaram os nossos sentidos e o nosso corpo. O século do Iluminismo foi, também, a ocasião na qual a escuridão da magia e da superstição teriam sido desbancadas pela luminosa aplicação da ciência natural aos costumes e valores sociais. Esse foi o momento no qual uma nova postura diante do mundo tomou um impulso inusitado, graças a postulação da idéia de uma natureza humana duplamente independente. De um lado, de Deus; do outro, de uma natureza inteiramente diferenciada da sociedade.

Domínio inesgotável, a ser infinitamente explorado pelas novas técnicas que eram o fruto concreto das idéias científicas e que foram responsáveis por um conjunto de extraordinárias transformações materiais e morais no seio da sociedade. Agora, existia natureza e sociedade e, na sociedade, religião e política eram esferas separadas. Um dos resultados do Iluminismo foi a idéia de que o Paraíso poderia ser construído neste mundo e não mais encontrado após a morte num outro mundo. Foi essa idéia fundamental que, como demonstrou Weber, fez com que fossem liberadas todas as energias sociais com o advento e a hegemonia do Calvinismo, como responsável pelo quadro de valores do capitalismo e do mundo por ele criado.

O século XIX e o XX deram seguimento, aprofundando e consolidando essas novas perspectivas no plano político e social. Não preciso lembrar que foi esse período que consolidou e tornou popular, senão trivial, a idéia de modernidade e, com ela, a de que os indivíduos poderiam romper com o todo (a sociedade) de modo a fazer valer os seus interesses, obter justiça ou alcançar a felicidade essa base da noção ocidental de revolução.

Este foi o momento em que aplicou-se à sociedade aquilo que se havia descoberto pelo estudo da natureza. O resultado acumulado apesar de todos os seus desastres e tragédias (autoritarismo, comunismo, fascismo, racismo e holocausto, provas de que planejamento racional do futuro seria possível e conseqüências da racionalidade da qual resultava esse planejamento) persistia. Havia um elo de continuidade dentro do quadro de valores do Ocidente iluminado pelo Iluminismo, que atravessou todos os experimentos sociais e políticos, tanto do século XIX quanto do século passado.

Deste modo, apesar de todos os problemas e tragédias, as idéias de progresso baseado no desenvolvimento tecnológico, de evolução linear fundada no conflito, de transformação baseada no crescimento quantitativo, mais do que qualitativo, persistiram e continuaram alimentando o ethos e uma atmosfera de otimismo que se repetia: claro, tivemos guerras! Claro, tivemos múltiplos etnocídios! Claro, tivemos miséria e decepções!...

Mas há, em toda essa nossa trajetória, um conjunto de inegáveis conquistas que justificam um otimismo e um progresso, os quais, num sentido profundo, nos davam a certeza de sermos os senhores do universo; os patrões absolutos do planeta. O HOMEM (homem mesmo, entidade masculina, branca, falante de inglês, francês ou alemão; que engloba a mulher, a criança, o "primitivo" e o velho), é mesmo o ser para o qual tudo seja pela vontade divina ou pela força do materialismo cientifico, dialético e certamente transcendental convergiu.

Para quem, como eu, nasceu nos anos 30 e foi um leitor embalado pelo otimismo progressista e pela engenhosidade utilitária mágica de Julio Verne, o século 21 era o futuro. Tudo o que li e me foi prometido iria ocorrer neste famoso milênio recém-inaugurado. Daí, talvez, o medo do terrível, do velho aforismo admoestatório: "de mil passarás, mas a dois mil não chegarás!", que uma vez ouvi de uma professora religiosa e severa, moto que, no seu pessimismo milenarista, esvaziava as grandes promessas do novo século.

Mas o século passou e as crises anunciadas, como a de uma Terceira Guerra Mundial se desfizeram. Desapareceu o Dr. Strangelove e, com ele, as promessas de uma inevitável conversão ao socialismo totalitário. Realmente, em vez do triunfo de uma sociedade finalmente administrada pela racionalidade do princípio segundo o qual, cada homem de acordo com suas necessidades, o que testemunhamos foi um tremendo desmascaramento orweliano. Desmanchou-se a União Soviética; descobrimos os horrores do Stalinismo e do Maoismo; e, pior que isso, emergiram como potências nações orientais que, na imaginação Iluminista, jamais seriam capazes de dominar a racionalidade necessária ao comando da indústria e da comunicação em larga escala. Os perdedores da Segunda Guerra Mundial o Japão e a Alemanha foram os grandes vencedores. Em seguida, o socialismo burocrático e da nomenclatura, caiu com o Muro de Berlim.

E, no final das contas e no limiar do milênio, quem deu um novo e inesperado formato na geopolítica planetária não foi nenhuma das revoluções anunciadas, como a energia nuclear, mas a da informática e dos meios de comunicação, que permitiu uma imprevista globalização financeira tocada pelo consumismo fanático, ao lado de eis outra dimensão impensável pela racionalidade materialista e utilitária um messianismo Islâmico igualmente não antecipado. Tudo isso tendo, como cenário, o dado maior deste mágico 2007: a descoberta e a plena consciência de que o planeta, e não apenas uma ou duas de suas regiões, corria o risco de destruição.

Para quem imaginava o século 21 como o marco das utopias, como o momento em que as doenças, a pobreza, o fanatismo e, até mesmo, a morte seriam finalmente derrotados, esses cruzamentos computarizados de extrema pobreza, extremada violência, doença e fome na África, no Haiti e no Brasil, com obesa abundância e o consumismo desenfreado nos Estados Unidos e na Europa ocidental, assombram.

Eis um novo século e um novo milênio no qual, em vez de um esperado e inevitável otimismo, temos o justo oposto. Um milenarismo às avessas: uma cruzada, não mais para implementar o progresso baseado na exploração brutal e contínua da natureza, mas para a dura e assustadora tomada de consciência de que a tal "natureza" também tem um limite. Que, sendo tão viva quanto nós, ela também tem um ciclo vital.

Tal consciência nos leva e esse é um tema básico para a reflexão do Planeta Sustentável a uma imediata e necessária reformulação, não só das agressões aos recursos naturais como objetos passivos e inermes, mas da velha e fundamental dualidade entre natureza e cultura; entre animais e homens para que se possa efetivamente salvar o planeta e, com ele (isso ninguém diz), salvar a humanidade! Ou seja, a ideologia individualista que nos controla debaixo do epíteto chamado "ideologia moderna" tem, hoje, que se haver com os efeitos de suas postulações. Com as conseqüências inesperadas e, como dizia Weber, não previstas de seus atos que, sempre implicam, como sabemos mas não gostamos de aquilatar, outras pessoas, grupos, sociedades, bem como os seus próprios limites. No mercado, o preço e o lucro (ou o prejuízo) são os limites; na vida social, o limite é a consciência da interdependência entre sistemas, é o resultado irracional que transforma a razão utilitária (obter lucro, ganhar competitividade, ser o melhor, etc...) em máquinas de destruição.

Em outras palavras, devemos voltar a escutar, como faziam nossos antepassados e como fazem os nossos índios e os "primitivos" em geral, os animais. Devemos voltar a pensar a sociedade não contra a natureza, mas com ela; e a natureza como sendo ela mesma um sujeito dotado de humanidade. Talvez, depois de termos incessantemente naturalizado a sociedade através da crença na superioridade inata (natural e biológica) de certos grupos sobre outros, de termos justificado certas leis, práticas e costumes como sendo mais adequados, porque seriam mais próximos da essência do DNA humano, tenha chegado o momento de pensar igualmente na humanização da sociedade. Numa visada pela qual se possa ultrapassar os limites da grande divisão entre natureza e cultura para que se possa ter um planeta capaz de sustentação. Essa sustentabilidade que obriga ouvir os animais, as plantas e, sobretudo, aqueles que, melhor que ninguém, vivem esse equilíbrio entre seus valores e os da natureza porque, entre eles, a natureza integrada na sociedade (ou atropomorfizada) não é uma inimiga, mas faz parte de seus códigos e linguagens.

O desastre ecológico reintroduz, no horizonte moderno, o limite para a tese de que a sociedade é o resultado de um contrato exclusivo entre indivíduos livres e exige repensar a prática da reciprocidade e da mutualidade entre pessoas e grupos e entre convenções e natureza. As brutais conseqüências de um estilo utilitário e comercial de exploração da natureza forçam-nos a reaprender a interdependência entre animais, montanhas, flores, florestas e sociedades. Como os primitivos, a humanidade pós-devastação ecológica (se houver uma), deverá incluir, não apenas "homens", mas, também, animais e espécies naturais todos como cidadãos, senão como irmãos em sua nova cosmologia. Como peças básicas, complementares e interdependentes, naquilo que antigamente se chamava de "grande cadeia dos seres".

Quem, no século passado, teria sido capaz de prever essa embrulhada brasileira de uma vida urbana, afinal cosmopolita majoritária, democraticamente popular, mas sem a menor segurança, limite e civilidade? Quem poderia antever esse nosso mundo inflado de atrações mas, ao mesmo tempo, assolado pela incúria administrativa e pela mendacidade política como valor? Se o século 20 acabou com Deus, como é que hoje vivemos tantas guerras religiosas? Como é que a previsão de um século 21 paradisíaco, terminou nessa enorme lista de violência, de conflitos insolúveis e de tanta dor, perda e sofrimento?

Cá estamos diante do sétimo ano do novo século e o que aparece diante de nós é o mais desolador prognóstico de destruição.

O bicho-homem, a espécie sem especificidade porque destituída de natureza, de programa geral e de instinto; o macaco nu onívoro, inventor da roda, da música, da piedade e da bomba atômica que começou ceifando o mato em torno de suas cabanas e, tendo construído a "aldeia global", tem também liquidado o planeta por meio de uma exploração impiedosa de todos os seus domínios.

A Terra, antes tomada como mãe generosa pelo pensamento desdenhado como primitivo e mágico, foi finalmente modernizada. Ela é, agora, a propriedade privada de estados nacionais (com suas novas magias de soberania nacional) e de companhias multinacionais (com seus índices sagrados de crescimento que rendem extraordinários e igualmente mágicos rendimentos). Finalmente, o pensamento racional, embutido no mercado e na configuração individualista que molda nossas sociedades, deu-nos a liberdade.

Enfim, o senhor do mundo, aquele que vivia à mercê dos deuses e que foi feito à imagem e semelhança do Criador conseguiu viva! liberar-se de si mesmo e das coerções morais que se manifestam nos resultados de suas ações. Tudo o que lhe havia tolhido a existência da felicidade individual foi colocado entre aspas.

Livre para amar tanto o caos (e a morte), quanto a ordem, o senhor do mundo vai finalmente consumar o seu maior feito: a destruição do próprio planeta. Do nicho onde vive, da Terra-mãe que o sustentou e lhe viu nascer, do cenário onde desempenhou tantos papéis, lutou tantas batalhas, gozou e sofreu em tantas realizações, viveu e morreu em tantas tragédias.

O que os oráculos anunciam em 2007 não é simplesmente que "o político X vai morrer", que quem é de Touro vai ter um grande ano ou que a Mariazinha vai encontrar um grande amor. É, puxa a vida, o fim do planeta!

Graças a um consumismo estabelecido como religião, a nave na qual o Homem Iluminado tem navegado pelo infinito do Universo, está sucumbindo. E como que para aumentar sua glória e abrilhantar, como uma valsa de Johan Strauss, a sua capacidade destrutiva, o fim do planeta não resulta de um conflito lógico entre blocos representativos do Bem ou do Mal, da Liberdade e da Submissão, ou do "nosso" Deus e do "deles". Resulta precisamente da hegemonia da parte sobre o todo, dos atores sobre a peça, do padre sobre a missa, da palavra sobre o texto.

Essas são as preocupações que queria compartilhar com vocês. A ideologia moderna, baseada num individualismo feroz e brutal, contido frequentemente pela polícia, terá que ser inevitavelmente disciplinada e, no limite, transformada, não por algum sinistro coletivismo fascista, mas pelo seu alcance planetário, pela sua imensa capacidade destrutiva, pela tecnologia e pelo consumismo que ela própria engendrou.

Se fui otimista, peço desculpas. Se admoestei, fico feliz porque foi minha intenção dizer que o desastre ecológico nada mais é do que o final de uma peça onde o Autor deseja não somente envolver o público, mas também destruir os cenários, o palco, o teatro e a cidade que o abriga. Afinal, o que o desastre ecológico nos lembra é que, se o mundo não tem um texto, como gostam de afirmar os modernos, ele tem sim, como a morte, um limite."

Roberto da Matta

http://planetasustentavel.abril.com.br/

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras

Alguns trechos e citações que retirei do livro "Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras", de Rubem Alves. Pessoalmente, eu gostei muito do livro. Trata de maneira bem crítica e esclarecedora, por vezes surpreendente, aquilo que entendemos como "ciência".


"O místico crê num Deus desconhecido. O pensador e o cientista crêem numa ordem desconhecida. É difícil dizer qual deles sobrepuja o outro em sua devoção não-racional." (L.L. White, The Act of Creation)

"Em todos os raciocínios derivados da experiência existe um passo dado pela mente que não é apoiado por nenhum argumento ou processo do entendimento." (David Hume, An Inquiry Concerning of Human Undertanding)

"(...) a razão só pode compreender aquilo que ela mesma produz de acordo com um plano que ela mesma elaborou (...). A razão, assim, se aproxima da natureza não como um aluno que ouve tudo que o professor se decide a dizer, mas como um juiz que obriga a testemunha a responder questões que ele formulou." (Kant, Crítica da razão pura, prefácio à segunda edição)

"Os fatos não se organizam em conceitos e teorias se simplesmente os contemplamos. Na verdade, exceto no contexto de conceitos e teorias, não há fatos científicos, mas apenas caos. Existe um fator a priori inevitável em todo trabalho científico. Perguntas devem ser levantadas antes que respostas possam ser dadas." (Gunnar Myrdal, Objectivity in Social Research)

"Uma ordem social já estabelecida tende a privilegiar as formas passadas de pensar, pois a novidade é sempre imprevisível, incontrolável, subversiva." (Rubem Alves, Filosofia da Ciência)

"O pensamento indutivo se levantou contra a ciência medieval, que pretendia ampliar o conhecimento da natureza por meio da dedução. Mas a dedução não serve para ampliar o conhecimento de coisa alguma. Ela só serve para garantir o rigor do caminho seguido pelo pensamento, quando ele pensa sobre si mesmo. Tal é o caso da lógica e da matemática." (Rubem Alves, Filosofia da Ciência)

"Não é o raciocínio (lógico) que nos leva a supor que o passado é semelhante ao futuro e a esperar efeitos semelhantes de causas que são aparentemente semelhantes." (David Hume)

"As mudanças mais fundamentais em qualquer ciência comumente resultam não da invenção de novas técnicas de pesquisa, mas antes de novas maneiras de olhar para os dados, dados estes que podem ter existido por longo tempo." (Alvin Gouldner)

"O discurso científico tem a intenção confessada de produzir conhecimento, numa busca sem fim da verdade." (Rubem Alves, Filosofia da Ciência)

"Teorias científicas podem ser metodicamente testadas e é isso que separa o discurso da ciência de todos os demais discursos." (Rubem Alves, Filosofia da Ciência)

"Cada cientista consciente deveria lutar contra a sua própria teoria. É isso que o torna uma pessoa capaz de perceber o novo." (Rubem Alves, Filosofia da Ciência)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Todo cambia...




Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor...

Passeio suburbano

Encontrei uma menina
que me perguntou se era verdade que iam demolir
aquele belíssimo pé de figueira.
Não, ela não disse belíssimo...
Foi por uma questão de ritmo que acrescentei aqui
esse adjetivo inútil.
Feliz de quem vive ainda no mundo dos substantivos:
o resto é literatura...
Sorri-lhe cumplicemente
(e tristemente)
porque me lembro que em meio ao quintal lá de casa
havia uma paineira enorme
(ultrapassava em altura o primeiro andar de meu
quarto)
Quando florescia, era uma glória!
Talvez fosse ela que impediu que meus sonhos de
menino solitário
tenham sido todos em preto-e-branco.
Uma glória... Até que um dia
foi posta abaixo
simplesmente
porque prejudicava o desenvolvimento das árvores
frutíferas.
Ora, as árvores frutíferas!
Bem sabes, meninazinha, que os nossos olhos também
precisam de alimento

[Mario Quintana, Baú de Espantos]

Infinito silêncio

















Infinito silêncio

Houve
(há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas

antes da luz
a matéria da matéria

de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente

esse silêncio
grita sob nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente

Ferreira Gullar

Desterro



Desterro

Eu ia triste, triste, com a tristeza discreta dos fatigados,
com a tristeza torpe dos que partiram tendo despedidas,
tão preso aos lugares
de onde o trem já me afastara estradas arrastadas,
que talvez eu não estivesse todo inteiro presente
no horror dessa viagem.
Mas a minha tristeza pesava mais do que todos os pesos,
e era por causa de mim, da minha fadiga desolada,
que a locomotiva, lá adiante, rídicula e honesta, bracejava,
puxando com esforço vagões quase vazios,
com almas cheias de distância, a penetrar no longe.
A tarde subiu do chão para a paisagem sem casas,
e o comboio seguia,
cada vez mais longe, mais fundo, a terra mais vermelha,
o esforço maior, as montanhas mais duras,
como sabem ser duros os caminhos,
pelos quais a gente vai, só pensando na volta...
Coagulada em preto,
a noite isolou as cousas dentro da tarde,
e o barulho do trem foi um rumor de soçobro
no fundo de um mar sem tona.
Nem mesmo foi a noite: foi a ausência
brusca e absurda do dia.
Tão definitiva e estranha, que eu me alegrei, esperando
o não continuar da vida,
o não-regresso da luz, o não-andar mais do trem...

Guimarães Rosa
(1908-1967)

sábado, 9 de janeiro de 2010

"Não quero ser triste
Como o poeta que envelhece
Lendo Maiakóvski
Na loja de conveniência
Não quero ser alegre
Como o cão que sai a passear
Com o seu dono alegre
Sob o sol de domingo...Nem quero ser estanque
Como quem constrói estradas
E não anda
Quero no escuro
Como um cego tatear
Estrelas distraídas..."

[Parte da letra de "Minha casa", Zeca baleiro]

Um pouco de filosofia da ciência...

”Concentremo-nos na “adaptação”. À primeira vista, a seleção natural parece explicá-la e, em certo sentido isso realmente ocorre; mas não de maneira que se possa considerar científica.

Dizer que uma espécie hoje viva está adaptada a seu meio é, em verdade, quase tautológico. Com efeito, empregamos os termos “adaptação” e “seleção” de modo tal que se torna cabível afirmar que, se a espécie não se houvesse adaptado, ela teria sido eliminada por seleção natural. De outra parte, se uma espécie foi eliminada, isso deverá ter ocorrido pelo fato de ela se adaptar mal às condições.

A adaptação (ou aptidão) é definida pelos modernos evolucionistas como um valor de sobrevivência, e pode ser medida em ter de êxito efetivo quanto à sobrevivência:dificilmente haveria possibilidade de submeter a prova uma teoria tão frágil quanto essa”.

Karl Popper. “Autobiografia Intelectual”

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Aparências

Sempre me chamou atenção como a mídia estereotipa
as "grandes revoluções" sociais do século XX, das quais
realmente eu não conheço a profundidade. Entenda-se
por revolução aquela em que a classe dominada se
rebelou e lutou para estabelecer uma nova ordem
social, mais justa. Bem, o que sempre se viu, ou se vê, foi
o emprego da palavra "comunista" a torto e a direito.
Um termo cujo significado real é ignorado e que é aplicado
como mote genérico que classifica todo aquele, ou aquilo,
que não compartilha das ideologias dominantes e
segregadoras. "Comunista", com certeza um termo
forjado para servir de intimidação, no mínimo afastar
a as pessoas de visões diferenciadas sobre a realidade.
Eu escrevo: o capitalismo é um sistema que impõe
a exploração brutal de algumas classes sociais para
o enriquecimento de uma minoria. Um texto certamente
"comunista". Mas, o que há de comunismo nele?
"Comunista!", caso encerrado. Um gesto arbitrário que
desrespeita tanto a opinião do escritor como a inteligência
do leitor.

Bom, eu, com toda a certeza, não sou "comunista", bem
como não devem ter sido, talvez, muitos dos personagens
que a História contemporânea sagrou como tal. Além
disso, não acredito em luta armada, nem em qualquer
imposição por meio da violência, mas posso dizer que
têm o meu profundo respeito todos aqueles que morreram
ao longo dos anos na tentativa de promover justiça social.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sonho domado

















Sonho domado

Sei que é preciso sonhar.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do vôo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

Thiago de Mello
In:"Melhores poemas"

terça-feira, 5 de janeiro de 2010



















"Eu lembro da moça bonita
Da praia de Boa Viagem
E a moça no meio da tarde
De um domingo azul
Azul, era Belle de Jour
Era a bela da tarde
Seus olhos azuis como a tarde
Na tarde de um domingo azul
La Belle de Jour!"

Alceu Valença

sábado, 2 de janeiro de 2010

Stand By Me




Stand By Me

Composição: Ben E. King

When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid, no I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me

And darling, darling stand by me, oh now now
Stand by me
Stand by me, stand by me

If the sky that we look upon
Should tumble and fall
And the mountains should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry, no I won't shed a tear
Just as long as you stand, stand by me

And darlin', darlin', stand by me, oh stand by me
Stand by me, stand by me, stand by me-e, yeah

Whenever you're in trouble won't you stand by me,
Oh now now stand by me
Oh stand by me, stand by me, stand by me

Darlin', darlin', stand by me-e, stand by me
Oh stand by me, stand by me, stand by me.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Não estou pensando em nada


Não estou pensando em nada.
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia.

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida...
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada...

Álvaro de Campos, um dos heterônimos de

Fernando Pessoa
(1888-1935)