segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Elefante




Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.


[Carlos Drummond de Andrade]

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Guardião dos Livros


















Aí estão os jardins, os templos e a justificativa dos templos,
A exata música e as exatas palavras,
Os sessenta e quatro hexagramas,
Os ritos que são a única sabedoria
Que outorga o Firmamento aos homens,
O decoro daquele imperador
Cuja serenidade foi refletida pelo mundo, seu espelho,
De sorte que os campos davam seus frutos
E as torrentes respeitavam suas margens,
O unicórnio ferido que regressa para marcar o fim,
As secretas leis eternas,
O concerto do orbe;
Essas coisas ou sua memória estão nos livros
Que custodio na torre.
Os tártaros vieram do Norte
Em crinados potros pequenos;
Aniquilaram os exércitos
Que o Filho do Céu mandou para castigar sua impiedade,
Ergueram pirâmides de fogo e cortaram gargantas,
Mataram o perverso e o justo,
Mataram o escravo acorrentado que vigiava a porta,
Usaram e esqueceram as mulheres
E seguiram para o Sul,
Inocentes como animais carnívoros,
Cruéis como facas.
Na aurora dúbia,
O pai de meu pai salvou os livros.
Aqui estão na torre onde jazo,
Recordando os dias que foram de outros,
Os alheios e antigos.
Em meus olhos não há dias. As prateleiras
Estão muito altas e não as alcançam meus anos.
Léguas de pó e sonho cercam a torre.
Por que me enganar?
A verdade é que nunca soube ler,
Mas me consolo pensando
Que o imaginado e o passado já são o mesmo
Para um homem que foi
E que contempla o que foi a cidade
E agora volta a ser o deserto.
O que me impede sonhar que alguma vez
Decifrei a sabedoria
E desenhei com aplicada mão os símbolos?
Meu nome é Hsiang. Sou quem custodia os livros,
Que talvez sejam os últimos,
Porque nada sabemos do Império
E do Filho do Céu.
Aí estão nas altas estantes,
Ao mesmo tempo próximos e distantes,
Secretos e visíveis como os astros.
Aí estão os jardins, os templos.

[Jorge Luis Borges, in Elogio da Sombra]

O Mistério das Cousas


















Há Metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo" ...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas,
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De que, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

[Alberto Caeiro, Fernando Pessoa]

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Do que Nada se Sabe
















A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?


[Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"]

O Caçador de raízes.


















Eu pertenço à fecundidade
e crescerei enquanto crescem as vidas:
sou jovem com a juventude da água,
sou lento com a lentidão do tempo,
sou puro com a pureza do ar,
escuro com o vinho da noite
e só estarei imóvel quando seja
tão mineral que não veja nem escute,
nem participe do que nasce e cresce.

Quando escolhi a selva
para aprender a ser,
folha por folha,
estendi as minhas lições
e aprendi a ser raiz, barro profundo,
terra calada, noite cristalina,
e pouco a pouco mais, toda a selva.

[NERUDA, Pablo. Antologia Poética, José Olympio, 1994, p. 232.]

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Poema em linha reta



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

[Álvaro de Campos; Fernando Pessoa]

Esta velha angustia




Esta velha angustia,
Esta angustia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pasadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.

Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino?
Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.

Quem de quem fui?
Está maluco.
Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer – Júpiter, Jeová, a Humanidade –
Qualquer serviria, Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

[Álvaro de Campos; Fernando Pessoa]

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Poemas de Álvaro de Campos



Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da sua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres que morreste.
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

(1926)

[Álvaro de Campos; Fernando Pessoa]

Mar Português














Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

[Fernando Pessoa]

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Atenção, jovem do futuro...



"Atenção, jovem do futuro:

Seis de setembro de 2120, aniversário da Revolução Socialista Mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade;Aqui fica somente a lembrança de um tristre passado de dor, sofrimento e morte.

Desculpem, eu estava sonhando quando escrevi esses acontecimentos, que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado."

[Chico Mendes]

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

I Wonder - Louis Armstrong





I wonder my little darling
Where can you be this moonlit night
Are you holding someone tight
Oh Baby, I wonder

My heart is aching, I'm a fool
To let it go on breaking
Maybe I'll awake and find that I'm mistaken
I wonder

Baby, since we're through I've been through lover's lane
But in my heart there's only pain
You went traveling, but will it last?
While I'm traveling nowhere fast, sweetheart, sweeheart

I wonder, well, well, well, little baby
If this new love dies, where will you be
Will your heart come running back to me
Baby, I wonder.

[Louis Armstrong]

domingo, 14 de novembro de 2010

The story of Schroedinger's cat (an epic poem)












May 7, 1982

Dear Cecil:

Cecil, you're my final hope
Of finding out the true Straight Dope
For I have been reading of Schroedinger's cat
But none of my cats are at all like that.
This unusual animal (so it is said)
Is simultaneously live and dead!
What I don't understand is just why he
Can't be one or other, unquestionably.
My future now hangs in between eigenstates.
In one I'm enlightened, the other I ain't.
If you understand, Cecil, then show me the way
And rescue my psyche from quantum decay.
But if this queer thing has perplexed even you,
Then I will and won't see you in Schroedinger's zoo.

— Randy F., Chicago

Cecil replies:

Schroedinger, Erwin! Professor of physics!
Wrote daring equations! Confounded his critics!
(Not bad, eh? Don't worry. This part of the verse
Starts off pretty good, but it gets a lot worse.)
Win saw that the theory that Newton'd invented
By Einstein's discov'ries had been badly dented.
What now? wailed his colleagues. Said Erwin, "Don't panic,
No grease monkey I, but a quantum mechanic.
Consider electrons. Now, these teeny articles
Are sometimes like waves, and then sometimes like particles.
If that's not confusing, the nuclear dance
Of electrons and suchlike is governed by chance!
No sweat, though--my theory permits us to judge
Where some of 'em is and the rest of 'em was."
Not everyone bought this. It threatened to wreck
The comforting linkage of cause and effect.
E'en Einstein had doubts, and so Schroedinger tried
To tell him what quantum mechanics implied.
Said Win to Al, "Brother, suppose we've a cat,
And inside a tube we have put that cat at--
Along with a solitaire deck and some Fritos,
A bottle of Night Train, a couple mosquitoes
(Or something else rhyming) and, oh, if you got 'em,
One vial prussic acid, one decaying ottom
Or atom--whatever--but when it emits,
A trigger device blasts the vial into bits
Which snuffs our poor kitty. The odds of this crime
Are 50 to 50 per hour each time.
The cylinder's sealed. The hour's passed away. Is
Our pussy still purring--or pushing up daisies?
Now, you'd say the cat either lives or it don't
But quantum mechanics is stubborn and won't.
Statistically speaking, the cat (goes the joke),
Is half a cat breathing and half a cat croaked.
To some this may seem a ridiculous split,
But quantum mechanics must answer, "Tough shit.
We may not know much, but one thing's fo' sho':
There's things in the cosmos that we cannot know.
Shine light on electrons--you'll cause them to swerve.
The act of observing disturbs the observed--
Which ruins your test. But then if there's no testing
To see if a particle's moving or resting
Why try to conjecture? Pure useless endeavor!
We know probability--certainty, never.'
The effect of this notion? I very much fear
'Twill make doubtful all things that were formerly clear.
Till soon the cat doctors will say in reports,
"We've just flipped a coin and we've learned he's a corpse."'
So saith Herr Erwin. Quoth Albert, "You're nuts.
God doesn't play dice with the universe, putz.
I'll prove it!" he said, and the Lord knows he tried--
In vain--until fin'ly he more or less died.
Win spoke at the funeral: "Listen, dear friends,
Sweet Al was my buddy. I must make amends.
Though he doubted my theory, I'll say of this saint:
Ten-to-one he's in heaven--but five bucks says he ain't."

— Cecil Adams


Fonte: http://www.straightdope.com/columns/read/113/the-story-of-schroedingers-cat-an-epic-poem

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Grilo










- Grilo, toca aí um solo de flauta.
- De flauta? Você me acha com cara de flautista?
- A flauta é um belo instrumento, não gosta?
- Troppo dolce!

[Manuel Bandeira]

A Navalha de Occam

A Navalha de Occam ou Navalha de Ockham é um princípio lógico atribuído ao lógico e frade franciscano  inglês William de Ockham (século XIV). O princípio afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir apenas as premissas estritamente necessárias à explicação do fenômeno e eliminar todas as que não causariam qualquer diferença aparente nas predições da hipótese ou teoria. O princípio é frequentemente designado pela expressão latina Lex Parsimoniae (Lei da Parcimônia) enunciada como:"entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" (as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade). Esta formulação é muitas vezes parafraseada como "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor". O princípio recomenda assim que se escolha a teoria explicativa que implique o menor número de premissas assumidas e o menor número de entidades. Originalmente um princípio da filosofia reducionista do nominalismo, é hoje tido como uma das máximas heurísticas (regra geral) que aconselham economia, parcimónia e simplicidade, especialmente nas teorias científicas.


"Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor"

— William de Ockham

Fonte: Wikipédia

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Um instante


















Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.

[Ferreira Gullar]

Escrever nem uma coisa...











Escrever nem uma coisa
Nem outra —
A fim de dizer todas —
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vagalumes.


[Manoel de Barros, in "O guardador de águas"]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Grandes são os desertos e tudo é deserto













"(...)
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com o oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.
Fim."

[Álvaro de Campos, Fernando Pessoa]

sábado, 16 de outubro de 2010

Demissão


















Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos se dependentes.

[José Saramago]

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Perde e ganha

Vida tenho uma só
que se gasta com a sola de meu sapato
a cada passo pelas ruas
e não dá meia-sola.

Perdi-a já
em parte
num poquer solitário,
mas a ganhei de novo
para um jogo comum.

E neste jogo a jogo
inteiro, a cada lance,
que a vida ou se perde ou se ganha com os demais
e assim se vive
que é a mais pura perda.

[Ferreira Gullar]

sábado, 25 de setembro de 2010

sábado, 18 de setembro de 2010

The Canals of Our City




The Canals Of Our City

Walls gone over the sea
But not for me
Watch now, all will end
Now all that I'm, under a tide
Now I'm, under a tide
Tall hair under it all
Much more than I once had
Over seas

[Beirut; Composição: Beirut]

quinta-feira, 2 de setembro de 2010















"Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei
dizendo que o homem está condenado a ser livre.
Condenado porque não se criou a si próprio; e,
no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo,
é responsável por tudo quanto fizer."

[J. P. Sartre]

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Céu














A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.

[Manuel Bandeira]

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Não me peçam razões

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Nâo me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei;
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir;
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

[José Saramago]

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ocorrência


















Aí o homem sério entrou e disse: bom dia
Aí o outro homem sério respondeu: bom dia
Aí a mulher séria respondeu: bom dia
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores, as paredes,
o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros, o mata-borrão, os
sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços.

[Ferreira Gullar]

sábado, 14 de agosto de 2010

"Para ser popular é necessário ser medíocre."

[Oscar Wilde]

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Liderança e Aquecimento Global, por Luiz Felipe d’Avila

Copenhague revelou que o aquecimento global não está entre as nossas principais prioridades políticas. Defender o meio ambiente pode conferir prestígio internacional, mas votos e poder se conquistam estimulando o crescimento econômico, gerando empregos e investindo em programas sociais que ajudem a aumentar a renda da população mais pobre. Nenhum dos lideres reunidos na Dinamarca estava disposto a assumir acordos internacionais e metas climáticas que dificultem a sua tarefa de alcançar esses objetivos. Quando confrontados com o fato de que terão de investir por volta de 2% do PIB mundial para tentar conter o aquecimento da Terra em uma década, os líderes imediatamente pensam que há outras prioridades que se sobrepõem à questão climática.

Bjørn Lomborg, cientista político e ambientalista dinamarquês, resume o dilema político em uma questão crucial: é preferível gastar US$ 180 bilhões para reduzir a temperatura da terra 1 ou 2 graus Celsius ou utilizar metade desse recurso para assegurar água potável, saneamento básico, assistência médica e educação elementar para a população? Para responder a essa questão, Lomborg reuniu cinco Prêmios Nobel da economia e pediu para que calculassem o retorno social de cada dólar investido. Eis aqui alguns resultados curiosos:

•    Prevenção contra AIDS. O retorno social é de US$ 40 para cada dólar investido.
•    Combater desnutrição: US$ 30 para cada dólar investido
•    Prevenção contra malária: US$ 10 dólares para cada dólar investido
•    Aquecimento global (cumprir o Protocolo de Kyoto): US$ 0,30 para cada dólar investido

O resultado deste estudo nos oferece um ótimo indicador das prioridades da sociedade. Líderes não costumam correr risco e remar contra os interesses da sociedade por causas que não considerem vitais e prioritárias. Portanto, não é de se estranhar que Lula ou Obama prefiram comprometer 2% do PIB para dobrar o Bolsa Família ou viabilizar a reforma do sistema público de saúde americano a investir na esperança de reduzir a temperatura da terra em uma década. Assim como todos nós, líderes políticos são obrigados a lidar com recursos finitos e demandas infinitas. Elegemos prioridades e somos obrigados a fazer escolhas que implicam a renúncia a algumas coisas em benefício de outras. Com exceção da pequena ilha de Tuvalu que está desaparecendo — e, feliz ou infelizmente, não é consenso que o aquecimento global tenha algo a ver com isso —, a maioria das pessoas não está disposta a fazer grandes sacrifícios hoje para salvar o planeta num amanhã sem data. É improvável que aceitassem um aumento de 20% a 50% na conta de luz, no preço dos alimentos ou do combustível para acabarmos com a queima de carvão ou com a utilização de adubos e pesticidas.

Então, devemos cruzar os braços e não fazer nada? De maneira nenhuma! A primeira atitude de um líder é compreender a diferença entre os desafios técnicos e os desafios comportamentais. Mudança de hábito, de crenças e atitudes exige doses de sacrifício, desconforto e experimentação. É um  processo de reeducação e de conscientização que cobra coragem, perseverança, determinação e consciência de que todo experimento pode dar errado e não atingir os resultados esperados. Lideres só correrão o risco de engajar as pessoas em mudanças comportamentais se forem capazes de vislumbrar os ganhos futuros, como voto e poder. Para isso, precisam fazer exatamente o oposto do que fizeram em Copenhague. Em primeiro lugar, é preciso determinar metas claras, objetivas e factíveis (como a redução de CO²). Em segundo lugar, é necessário criar medidas que até podem gerar desconforto nas pessoas (mudança de crenças e atitudes), mas sem colocar em risco aquilo que lhes é vital: o preço dos alimentos, por exemplo. Em terceiro lugar, o mundo pede bons educadores, engajando as pessoas para enfrentar com realismo as mudanças de hábitos e crenças, evitando o apelo às pílulas de demagogia — como culpar as “potências imperialistas”, o “consumismo desenfreado” ou a “ganância dos empresários” pelos males da humanidade e pelo aquecimento global — para aliviar a dor e a tensão de se adaptar as novas circunstâncias.

A visão dos líderes políticos é calibrada pela realidade em que atuam. Se a sua visão estiver muito distante daquela das pessoas, os seus objetivos não as atrairão e não as mobilizarão. Se os seus objetivos se circunscrevem aos objetivos de curto prazo, eles serão incapazes de promover mudanças realmente  transformadoras na sociedade. Hoje, os líderes políticos não estão dispostos a correr o risco de irritar os seus concidadãos e criar desconforto nas pessoas, desafiando-as a promover mudanças radicais no seu modo de viver, nos seus valores e no seu comportamento para “salvar” o planeta. Antes de exigir sacrifícios do povo, os lideres precisam fomentar o amadurecimento da questão climática no seio da sociedade. De fato, a conferência em Copenhague nos ensinou que, ao criarmos um senso de urgência para a questão do aquecimento global sem estarmos preparados e dispostos a fazer os sacrifícios necessários para mudarmos de hábitos, crenças e atitudes, geramos frustração na sociedade e descrédito dos líderes.

Copenhague destruiu a falsa ilusão de que podemos enfrentar o aquecimento global recorrendo apenas a soluções técnicas (como utilização de dinheiro e tecnologia) e nos esquivando da responsabilidade de rever a maneira como vivemos, consumimos e geramos produtos, bens e serviços. A questão do aquecimento global retrata os conflitos de valores entre o que pregamos e o que fazemos.

Luiz Felipe d’Avila é diretor-presidente do Centro de Liderança Pública.

Fonte: http://www.universodoconhecimento.com.br/content/view/529/24/

Youth For Human Rights - The Right to Life

Youth For Human Rights - We Are All Born Free & Equal

terça-feira, 10 de agosto de 2010

"A intuição não é uma opinião, 
é a própria coisa."

[Arthur Schopenhauer]

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cada Tempo Em Seu Lugar



Preciso refrear um pouco o meu desejo de ajudar
Não vou mudar um mundo louco dando socos para o ar
Não posso me esquecer que a pressa
É a inimiga da perfeição
Se eu ando o tempo todo a jato, ao menos
Aprendi a ser o último a sair do avião

Preciso me livrar do ofício de ter que ser sempre bom
Bondade pode ser um vício, levar a lugar nenhum
Não posso me esquecer que o açoite
Também foi usado por Jesus
Se eu ando o tempo todo aflito, ao menos
Aprendi a dar meu grito e a carregar a minha cruz

Ô-ô, ô-ô
Cada coisa em seu lugar
Ô-ô, ô-ô
A bondade, quando for bom ser bom
A justiça, quando for melhor
O perdão:
Se for preciso perdoar

Agora deve estar chegando a hora de ir descansar
Um velho sábio na Bahia recomendou: "Devagar"
Não posso me esquecer que um dia
Houve em que eu nem estava aqui
Se eu ando por aí correndo, ao menos
Eu vou aprendendo o jeito de não ter mais aonde ir

Ô-ô, ô-ô
Cada tempo em seu lugar
Ô-ô, ô-ô
A velocidade, quando for bom
A saudade, quando for melhor
Solidão:
Quando a desilusão chegar

[Gilberto Gil]

sábado, 31 de julho de 2010

Beethoven Triple Concerto (II) - Largo

Canção de enganar tristeza

Se a tristeza um dia
Te encontrar triste sozinho
Trata dela bem
Porque a tristeza quer carinho
E fala sobre a beleza
Com tanta delicadeza
Por não ter nenhum carinho
Que ela só existe
Por não ter nenhum carinho
E dá-lhe um amor tão lindo
Que quando ela se for indo
Ela vá contente
De ter tido o teu carinho

[Vinicius de Morais]

sábado, 24 de julho de 2010

A Poeira e a Estrada

Amigo olhe a poeira
Olhe a estrada
Olhe os garranchos
Que arranham pensamentos
Entre o cascalho
Vá seperando os espinhos
Não esqueça que os caminhos
São difíceis pra danar
Nem todo atalho
Diminui uma distância
Nem toda ânsia no final tem alegria
Veja na flor que o espinho lhe vigía
A noite adormece o dia
E a lua vem lhe ninar
Devagarinho
Vá pelo cheiro das flores
Siga os amores
Nunca deixe prá depois
Nem tudo é certo
Como quatro é dois e dois
Nem todo amor merece todo coração
Se a poesia ainda não lhe trouxe o fermento
E o sofrimento entre o amor, ganhou a vez
Nem tudo é eterno quando a gente sonha

Por isso amigo
Não se entregue agora
Talvez um dia o mundo lhe peça perdão

Por isso não se perca não
Os amores vão e a gente fica.

[Maciel Melo]

In Ensaios Céticos

"Nossa ética atual é uma mistura curiosa de superstição e racionalismo. O assassinato é um crime antigo e o percebemos através de uma longa névoa de horror. A falsificação é um crime moderno e o encaramos de forma racional. Punimos os falsificadores, mas não os consideramos seres estranhos, ou os discriminamos, como fazemos com os assassinos. E ainda pensamos, na prática social, qualquer que seja a nossa teoria, que a virtude consiste em não fazer, em vez de fazer. O homem que se abstém de certos atos rotulados de 'pecados' é um homem bom, embora nunca faça nada para o bem-estar dso outros. Isso, é claro, não é uma atitude recomendada pelo Evangelho: 'Amar ao próximo como a si mesmo' é um preceito positivo. Mas em todas as comunidades cristãs o homem que obedece a esse preceito é perseguido, torna-se no mínimo pobre, em geral é preso e, às vezes, morto. O mundo está cheio de injustiças, e aqueles que lucram com a injustiça estão numa posição de administrar as recompensas e os castigos. As recompensas vão para os que inventam justificativas engenhosas para a desigualdade; os castigos para aqueles que tentam remediá-la. Não conheço nenhum país onde o homem que tenha um amor genuíno pelo seu vizinho possa evitar a desonra. Em Paris, antes da eclosão da guerra [Primeira Guerra Mundial], Jean Jaurès, o melhor cidadão da França, foi assassinado; o assassino foi absolvido sob o arguemento de que tinha realizado um serviço público. Esse caso foi peculiarmente dramático, porém o mesmo tipo de incidente que acontece em todo lugar.

Aqueles que defendem a moralidade tradicional às vezes admitem que ela não é perfeita, mas sustentam que qualquer crítica fará com que toda a moralidade entre em colapso. Esse não será o caso se a crítica estiver baseada em algo positivo e construtivo, porém apenas se for conduzida tendo em vista o prazer momentâneo. Voltando a Bentham: ele defendia como base da moral ,'a maior felicidade do maior número'.Um homem que age sob esse princípio terá uma vida muito mais árdua do que aquele que apenas obedeça a preceitos convencionais. Ele, necessariamente, se transformará no campeão dos oprimidos, e por isso estará sujeito à inimizade dos grandes. Ele proclamará fatos que o sistema deseja ocultar; ele negará falsidades destinadas afastar a simpatia daqueles que precisam dela. Esse modo de vida não conduz ao colapso de uma moralidade genuína. A moralidade oficial sempre foi opressora e negativa: diz-se 'não deverás' sem se dar ao trabalho de investigar o efeito das atividades não proibidas pelo código. Contra esse tipo de moralidade todos os grandes professores místicos e religiosos protestaram em vão: seus seguidores ignoraram seus pronunciamentos mais explícitos. Parece improvável, portanto, que qualquer melhoria em larga escala advenha desses métodos.

Penso que devemos esperar mais do progresso da razão e da ciência. Os homens, aos poucos, se conscientizarão que o mundo cujas instituições baseiam-se no ódio e na injustiça não é o que terá maior probabilidade de gerar felicidade. A última guerra ensinou essa lição a alguns poucos, e teria ensinado a muitos mais se tivesse terminado em empate. Precisamos de uma moralidade baseada no amor à vida,  no prazer de crescer e nas realizações positivas, não na represão e na proibição. Um homem deveria ser considerado 'bom' se fosse feliz, expansivo, generoso e alegre quando os outros estivessem felizes; se fosse assim, uns poucos pecadilhos seriam considerados como de importãncia menor. No entanto, um homem que adquire fortuna por meio de crueldade e exploração deveria ser visto como hoje vemos o chamado homem "imoral"; e assim deveria ser julgado, mesmo que frequentasse a igreja com regularidade e desse uma parte de seus ganhos ilícitos com propósitos públicos. Para trazer esse assunto à discussão, é apenas necessário instilar uma atitude racional a questões éticas, em vez da mistura de superstição e opressão que ainda é aceita como 'virtude' entre personagens importantes. O poder da razão é pequeno nestes dias, mas continuo sendo um racionalista não arrependido. A razão pode ser uma força pequena, porém é constante e trabalha sempre em uma direção, enquanto que as forças da irracionalidade destroem-se umas às outras em uma luta fútil. Portanto, cada orgia do irracionalismo acaba por fortalecer os amigos da razão e mostra, mais uma vez, que são os únicos verdadeiros amigos da humanidade."

[Bertrand Russell, Ensaios Céticos]

quinta-feira, 22 de julho de 2010

"É importante aprender a não se aborrecer com opiniões diferentes das suas, mas dispor-se a trabalhar para entender como elas surgiram. Se depois de entendê-las ainda lhe parecerem falsas, então poderá combatê-las com mais eficiência do que se você tivesse se mantido simplesmente chocado."

[Bertrand Russell]

terça-feira, 20 de julho de 2010

Balõezinhos


















Na feira do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
- "O melhor divertimento para as crianças!"
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.

No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.

Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.

Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a
[única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.

O vendedor infatigável apregoa:
- "O melhor divertimento para as crianças!"
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um
[círculo inamovível de desejo e espanto.

[Manuel Bandeira]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Alguém

Um homem trabalhado pelo tempo,
um homem que nem sequer espera a morte
(as provas da morte são estatísticas
e não há ninguém que não corra o risco
de ser o primeiro imortal),
um homem que aprendeu a agradecer
as modestas esmolas dos dias:
o sonho, a rotina, o sabor da água,
uma não suspeitada etimologia,
um verso latino ou saxão,
a lembrança de uma mulher que o abandonou
já faz tantos anos
que hoje pode recordá-la sem amargura,
um homem que não ignora que o presente
já é o futuro e o esquecimento,
um homem que foi desleal
e com quem foram desleais
pode sentir de repente, ao cruzar a rua,
uma misteriosa felicidade
que não vem do lado da esperança
mas sim de uma antiga inocência,
de sua própria raiz ou de um deus disperso.

Sabe que não deve olhá-la de perto,
porque há razões mais terríveis que tigres
que lhe demonstrarão seu dever
de ser um desventurado,
porém humildemente recebe
essa felicidade, esse lampejo.

Talvez na morte para sempre sejamos,
quando o pó for pó,
essa indecifrável raiz,
da qual para sempre crescerá,
equânime ou atroz,
nosso solitário céu ou inferno.

[Jorge Luis Borges]

sábado, 17 de julho de 2010

A prova

Do outro lado da porta um homem deixa cair sua corrupção. Em vão elevará esta noite uma prece ao seu curioso deus, que é três, dois, um, e se dirá que é imortal. Agora ouve a profecia de sua morte e sabe que é um animal sentado. 

És, irmão, esse homem. Agradeçamos os vermes e o esquecimento.

[Jorge Luis Borges]

quinta-feira, 15 de julho de 2010

"Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada." 

[Darcy Ribeiro]

terça-feira, 13 de julho de 2010

Felicidade


Felicidade

Epílogo

Não, o melhor é não falares,
não explicares coisa alguma.
Tudo agora está suspenso.
Nada agüenta mais nada.

E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes,
o que é que derruba um castelo de cartas!
Não se sabe...

Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca...
Outras vezes senta uma mosca e derruba uma cidade.

[Mario Quintana, in Sapato Florido]

domingo, 11 de julho de 2010










Cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

[Paulo Leminski]

Bem no Fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

[Paulo Leminski]

sábado, 10 de julho de 2010

A rã



O homem estava sentado sobre uma lata na beira de uma garça. O rio Amazonas passava ao lado. Mas eu queria insistir no caso da rã. Não seja este um ensaio sobre orgulho de rã. Porque me contou aquela uma que ela comandava o rio Amazonas. Falava, em tom sério, que o rio passava nas margens dela. Ora, o que se sabe, pelo bom senso, é que são as rãs que vivem nas margens dos rios. Mas aquela rã contou que estava estabelecida ali desde o começo do mundo. Bem antes do rio fazer leito para passar. E que, portanto, ela tinha a importância de chegar primeiro. Que ela era por todos os motivos primordial. E quem se fez primordial tem o condão das primazias. Portanto era o rio Amazonas que passava por ela. Então, a partir desse raciocínio, ela, a rã, tinha mais importância. Sendo que a importância de uma coisa ou de um ser não é tirada pelo tamanho ou volume do ser, mas pela permanência do ser no lugar. Pela primazia. Por esse viés do primordial é possível dizer então que a pedra é mais importante do que o homem. Por esse viés é que a rã se acha mais importante do que o rio Amazonas. Por esse viés, com certeza, a rã não é uma creatura orgulhosa. Dou federação a ela. Assim como dou federação à garça quem teve um homem sentado na beira dela. As garças têm primazia.

[Manoel de Barros, in "Memórias inventadas – A infância"]

Aurora

O poeta ia bêbedo no bonde.
O dia nascia atrás dos quintais.
As pensões alegres dormiam tristíssimas.
As casas também iam bêbedas.
Tudo era irreparável.
Ninguém sabia que o mundo ia acabar
(apenas uma criança percebeu mas ficou calada),
que o mundo ia acabar às 7 e 45.
Últimos pensamentos! últimos telegramas!
José, que colocava pronomes,
Helena, que amava os homens,
Sebastião, que se arruinava,
Artur, que não dizia nada,
embarcam para a eternidade.
O poeta está bêbedo, mas
escuta um apelo na aurora:
Vamos todos dançar
entre o bonde e a árvore?
Entre o bonde e a árvore
dançai, meus irmãos!
Embora sem música
dançai, meus irmãos!
Os filhos estão nascendo
com tamanha espontaneidade.
Como é maravilhoso o amor
(o amor e outros produtos).
Dançai, meus irmãos!
A morte virá depois
como um sacramento.

[Carlos Drummond de Andrade]

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Necrológio dos desiludidos do amor

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas os veremos
seja no claro céu ou no turvo inferno.
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados completamente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

[Carlos Drummond de Andrade]

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Trechos Manoel de Barros...

"Bicho acostumado na toca encega com estrela."

"Eu sustento com palavras o silêncio do meu abandono"

"Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina."

"Tem mais presença em mim o que me falta."

"O abandono me protege."

"Não gosto da palavra acostumada."

"Tenho preguiça de ser sério."

"Poesia é a loucura da palavra."

"As palavras continuam com seus deslimites."

"Choveu na palavra onde eu estava."

"Uma certa luxúria com a liberdade convém."

"Coisa tão velha como andar a pé. Esses vareios do dizer."

"Ai frases de pensar! Pensar é uma pedreira. Estou sendo."

"Pra mim, sapo é uma pedra que pula, quer dizer então que pedra é um pedaço de chão?"

"Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino."

"Andando devagar eu atraso o final do dia."

"Livre, livre é quem não tem rumo."

''A chuva deformou a cor das horas.''

"Eu só não queria significar. Porque significar limita a imaginação."

"A minha independência tem algemas."

''Eu sou cul­pado de mim.''
                   

Canção paralela

Por uma escada que levava até o rio...
Por uma escarpa que subia até as nuvens...
Pezinhos nus
Desceram...
Mãos nodosas
Grimparam...

E havia um coraçãozinho que batia assustado, assustado...
E um coração tão duro que era como se tivesse parado...
Um escorria fel...
O outro, lágrimas...
No rosto dele havia sulcos como de arado...
No rosto dela a boca era uma flor machucada...

E até a morte os separou!

[Mario Quintana]

terça-feira, 6 de julho de 2010

O livro de areia



... Thy rope of sands ...
George Herbert (1593-1623)

A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes... Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar meu relato.
Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico.
Vivo só, num quarto andar da Rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal conformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.
Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.
— Vendo bíblias — disse.
Não sem pedantismo respondi-lhe:
— Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da ulgata. Como o senhor vê, não são precisamente bíblias o que me falta.
Ao fim de um silêncio respondeu:
— Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir.
Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Hali Writ e, abaixo, Bombay.
— Será do século dezenove — observei.
— Não sei. Não soube nunca — foi a resposta.
Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 80.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada a pena, como pela desajeitada mão de um menino.
Foi então que o desconhecido disse:
— Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais.
Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.
Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha. Para ocultar meu desconcerto, disse:
—Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade?
— Não — replicou.
Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo:
— Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.
Pediu-me que procurasse a primeira folha. Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.
— Agora procure o final.
Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era minha:
— Isto não pode ser.
Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse:
— Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.
Depois, como se pensasse em voz alta:
— Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.
Suas considerações me irritaram. Perguntei:
— O senhor é religioso, sem dúvida?
— Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico.
Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume.
— E de Robbie Burns — corrigiu.
Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:
— O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?
— Não. Ofereço-o ao senhor — replicou e fixou uma soma elevada.
Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano.
— Proponho-lhe uma troca — disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais.
— A black letter Wiclif! — murmurou.
Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo.
— Trato feito — disse.
Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as.
Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome.
Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As mil e uma Noites.
Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência.
Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vêlos. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.
O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.
Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça.
Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta.
Sinto um pouco de alívio, mas não quero passar pela Rua México.

[Jorge Luis Borges]

segunda-feira, 5 de julho de 2010

"Quando refletimos sobre a humanidade, pensamos basicamente em nós mesmos como seus representantes; portanto, temos apreço por ela e achamos importante sua preservação. O sr. Jones, um comerciante não-conformista, está certo de que merece a vida eterna, e o universo que lhe negar isso será intoleravelmente perverso. No entanto, quando pensa no sr. Robinson, o concorrente anglicano, que mistura areia ao açúcar e é negligente para com os domingos, refelte que o universo pode, sem dúvida, levar a caridade longe demais. Para completar sua felicidade, existe a necessidade do fogo do inferno para o sr. Robinson; dessa forma, a importância cósmica do homem está preservada, porém a distinção vital entre amigos e inimigos não está obliterada por uma benevolência universal fraca. O sr. Robinson tem o mesmo ponto de vista com os papéis invertidos, e resulta na felicidade geral."

[Bertrand Russell, Ensaios Céticos]

quinta-feira, 1 de julho de 2010

"É costume supor que a maioria de nossas crenças origina-se de alguma base racional e o desejo é apenas uma força pertubadora ocasional. O exato oposto disso estaria mais próximo da verdade: a grande massa de crenças pelas quais somos apoiados em nossa vida cotidiana apenas representa o desejo, corrigido aqui e ali, em pontos isolados, pelo simples choque dos fatos. O homem é, em seu cerne, um sonhador despertado algumas vezes por um momento através de algum elemento peculiarmente desagradável do mundo externo, mas caindo, logo, mais uma vez, na alegre sonolência da imaginação."

[Bertrand Russell, Ensaios Céticos]

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Pneumotórax




Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
   [ pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

[Manuel Bandeira]

sábado, 26 de junho de 2010

Sonata ao luar

Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai Ramela, passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo.
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

[Manoel de Barros]

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O interrogatório do homem que saiu de casa de-
pois da hora de recolher começou há quinze dias e
ainda não acabou

Os inquiridores fazem uma pergunta em cada
sessenta minutos vinte quatro por dia e exi-
gem cinqüenta e nove respostas diferentes para
cada uma

É um método novo

Acreditam que é impossível não estar a resposta
verdadeira entre as cinqüenta e nove que foram
dadas

E contam com a perspicácia do ordenador para
descobrir qual delas seja e a sua ligação com as
outras

Há quinze dias que o homem não dorme nem
dormirá enquanto o ordenador não disser não pre-
ciso de mais ou o médico não preciso de tanto

Caso em que terá o seu definitivo sono

O homem que saiu de casa depois da hora de
recolher não dirá por que saiu

E os inquiridores não sabem que a verdade está
na sexagésima resposta

Entretanto a tortura continua até que o médico
declare

Não vale a pena.

[José Saramago]

Morte e Vida Stanley

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Além alma

(Uma grama depois)

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
Não tem vaga neste lugar.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
eu estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

[Paulo Leminski]

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Recessão, mudança climática e a volta do planejamento, por Anthony Giddens

Especial para o Global Viewpoint

A mudança climática e como responder a ela são assuntos dos noticiários do momento. Assim como, é claro, a recessão econômica, que também é global e profundamente preocupante. Mas qual é a relação entre as duas?

Toda crise é potencialmente um estímulo para lado positivo da personalidade -é uma oportunidade de começar novamente, disse Sigmund Freud. Esse ponto não passou despercebido pelos líderes políticos. Depois do exemplo do presidente Obama nos EUA, muitos endossaram a idéia de um New Deal da mudança climática. O investimento em tecnologias de baixo carbono, o isolamento de prédios e o transporte público podem dar uma importante contribuição para a economia mover-se novamente, é o raciocínio.

Nick Stern, autor do celebrado Relatório Stern da economia da mudança climática, argumenta que tais medidas devem envolver pelo menos 20% dos fundos dos planos de recuperação. As propostas de Obama são menores que isso, mas alguns países estão alocando muito mais. A Coreia do Sul, por exemplo, está dedicando nada menos do que dois terços de seu pacote de recuperação para tais fins.

Eu apóio a idéia de um New Deal de mudança climática e espero que produza o dobro de benefícios propostos -o triplo de benefício, de fato, se os países conseguirem também reduzir sua dependência sobre o petróleo importado. Ainda assim, o efeito estimulante levantado por Freud deve nos unir em pensamento e ação em uma frente muito mais ampla.

Estamos no limiar de uma importante revolução, o fim da economia do combustível fóssil; agora é hora de tentar pensar em suas implicações prováveis. Essas vão desde questões triviais e mundanas até as mais amplas e especulativas.

Do lado trivial, uma importante preocupação tem que ser com empregos. Segundo seus defensores, o New Deal de mudança climática deve criar novos empregos por si mesmo. Não tenho tanta certeza disso. Será que significa, como teria que significar, a criação de empregos líquidos- ou seja, números maiores do que existiam antes? Quando mais energia for produzida de fontes de baixo carbono e quanto mais a eficiência energética aumentar, alguns trabalhadores nas indústrias baseadas em combustíveis fósseis, tais como minas de carvão, ficarão sem trabalho. A maior parte das inovações tecnológicas reduz, em vez de aumentar, a necessidade de força de trabalho.

Os empregos serão criados não tanto pelas tecnologias renováveis quanto pelas mudanças de estilo de vida provocadas pelas questões de mudança climática e segurança energética. As sensibilidades vão mudar e, com elas, os gostos. A nova economia que emergirá será ainda mais radicalmente pós-industrial do que a que temos hoje. Caberá aos empresários identificar as oportunidades econômicas que virão com a expansão -como foram encontradas formas de revitalizar as regiões portuárias onde a indústria de navegação evaporou-se.

Enquanto ponderamos de que forma deve ser a recuperação da recessão, devemos pensar seriamente sobre a natureza do próprio crescimento econômico, ao menos nos países ricos. Sabe-se há muito tempo que, acima de certo nível de prosperidade, o crescimento não necessariamente leva a um maior bem-estar pessoal e social. Agora é a hora de introduzir medidas mais completas de bem-estar junto com o PIB e dar a elas verdadeira ressonância política. Agora é a hora de uma crítica sustentada e positiva do consumismo, com peso político. Agora é hora de trabalhar para uma recuperação que não signifique uma reversão para a sociedade de muito dinheiro.

O período da desregulamentação de Thatcher acabou. O Estado voltou. Precisaremos de uma política industrial ativa e planejamento, em relação às instituições econômicas e também para a mudança climática e política energética.

Os erros feitos por gerações anteriores de planejadores, entretanto, têm que ser evitados. Muitas questões se apresentam. Tome o exemplo da tecnologia renovável. São necessários avanços tecnológicos para que, em algum ponto, os combustíveis fósseis tornem-se história. Ainda assim, como os governos devem decidir quais apoiar? Como eles podem lidar com o fato que as mais radicais inovações tecnológicas- tais como a Internet- muitas vezes não são previstas por ninguém?

Temos que encontrar um novo papel para o governo, mas também para mecanismos de mercado. Instrumentos financeiros complexos subitamente sairão de moda, culpados pelo colapso do mercado. Ainda assim, teremos a necessidade deles porque, propriamente regulados, algumas vezes são de fato chave para o investimento de longo prazo, em vez de uma força contrária.

Considere a questão do seguro contra eventos climáticos extremos, tais como os furacões no Caribe. Tais episódios vão se tornar mais frequentes e mais intensos, já que a mudança climática, até certo ponto, certamente ocorrerá. Prover seguro contra danos será uma forma importante de se adaptar a ela -especialmente quando pessoas mais pobres são envolvidas. A indústria de seguros privada terá que fornecer a maior parte do capital, já que dadas suas muitas obrigações só pode ser a seguradora do último recurso.

E depois, bem, há o avô da coisa toda, a globalização, que progrediu rapidamente sem controles internacionais adequados. A regulamentação eficaz dos mercados financeiros mundiais é essencial para o futuro. Talvez ajude a pavimentar o caminho para a colaboração, essencial para lidar com a mudança climática -muito tem que ser repensado neste quesito, enquanto 200 nações se preparam para as reuniões patrocinadas pela ONU em Copenhague em dezembro. A crise financeira e suas consequências deram uma sacudida nas formas estabelecidas de pensar que deve se provar muito importante. Estamos no final do final da história.

* Anthony Giddens, sociólogo e guru do "terceiro caminho" de Tony Blair, é ex-diretor da Escola de Economia de Londres. Seu novo livro, "The Politics of Climate Change" (A política da mudança climática), será publicado pela Polity Press no dia 20 de março.



Fonte: USA Today/ Uol