segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Quem sabe não seria essa uma das funções da poesia...

Trecho de Entrevista com Ferreira Gullar:

"Todo poema que escrevo é, no fundo, uma ampliação de minha própria maneira de me expressar, de modo que, ao iniciar qualquer poema, não sei bem onde vou terminar.

Agora, numa época como a nossa, cujas características são as de transformar tudo em mercadoria e cujo único valor que se reconhece é o da troca mercantil, o poeta, ao contrário do que se possa imaginar, tem um papel cada vez mais crucial. E não só o poeta, mas também o músico, o pintor, o artista, enfim. E isso para não falar daquele homem que se mantém fiel à sua natureza de ser humano, entende?

Certa vez, quando eu estava no exílio e nos reuníamos para um jantar com outros exilados brasileiros, havia um economista, casado com uma morena muito bonita, que atormentava todo mundo com aquele papo de economia, com aquelas teorias arrogantes que pretendem explicar o mundo. Um dia a morena foi embora, e bastou que isso acontecesse para que ele mudasse de conversa. O cara sentou ao meu lado e passou a falar só de poesia: poesia inglesa, poesia espanhola, poesia francesa. Enfim, era um profundo conhecedor de poesia. Mas só começou a falar desse assunto quando a morena foi embora e ele soube o que era o desamparo.

Quem sabe não seria essa uma das funções da poesia, ou seja, despertar-nos para o efêmero e a fugacidade da vida?"

In:"Poesia Sempre", 9. Mar/98

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