segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O Cacto

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatutária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito dos bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou
[a cidade de iluminção e energia:
- Era belo, áspero, intratável.

Manuel Bandeira
In:"Poesia reunida"

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