quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Fui educado nas letras desde a infância; e, uma vez que me persuadiam que por meio delas poderíamos adquirir conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, tinha um extremo desejo de aprendê-las. Mas tão logo terminei esse curso de estudos, ao fim do qual se costuma ser admitido entre os doutos, mudei completamente de opinião. Pois me achava acossado por tantas dúvidas e erros, que me parecia que meu único lucro, ao procurar instruir-me, fora ter descoberto cada vez mais a minha ignorância. E, no entanto, estava numa das mais célebres escolas da Europa, onde julgava haver eruditos, se é que existiam tais pessoas em algum lugar da terra. Lá aprendera tudo o que os outros aprendiam; e até, não me havendo contentado com as ciências que nos ensinavam, percorrera todos os livros que caíssem em minhas mãos e tratassem das consideradas mais curiosas e mais raras. Com isso, eu sabia os juízos que os outros faziam de mim; e não via de modo algum que me considerassem inferior aos meus colegas, embora já houvesse entre eles alguns destinados a ocupar o lugar dos nossos mestres . E, enfim, nosso século parecia-me tão florescente e fértil em bons espíritos quanto qualquer um dos anteriores. O que me fazia tomar a liberdade de julgar por mim todos os outros, e de pensar que não havia nenhuma doutrina no mundo que fosse tal como antes me haviam feito esperar."

[Discurso do Método, René Descartes]

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