quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Digo sim

Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos de meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
e que meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
e nuvens

Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
no rodar
das cabrochas no Carnaval
da Avenida.
Mas não. O poeta mente.

A vida nós a amassamos em sangue
e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
em meio à fome
e dizendo sim
- em meio à violência e a solidão dizendo
sim -
pelo espanto da beleza
pela flama de Thereza
pelo meu filho perdido
neste vasto continente
por Vianinha ferido
pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
- digo sim

Ferreira Gullar

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Canção do suicida

Não me matarei, meus amigos.
Não o farei, possivelmente.
Mas que tenho vontade, tenho.
Tenho, e, muito curiosamente,

Com um tiro. Um tiro no ouvido,
Vingança contra a condição
Humana, ai de nós! sobre-humana
De ser dotado de razão.

Manuel Bandeira
(1886-1968)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ah, sim, a velha poesia...

Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Não estão ouvindo lá fora, os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhes grilos aos milhões um lápis verde um retrato
amarelecido um velho ovo de costura os teus pecados
as reivindicações as explicações - menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger de dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos...

Pois bem,
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
parece que nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.

Mario Quintana
(1906-1994)
Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá.
Numa determinada pedra numa rua de Calcutá.
Solta. Sozinha.
Quem repara nela?
Só eu, que nunca fui lá.
Só eu, deste lado do mundo,
te mando agora esse pensamento...
Minha pedra de Calcutá!


Mario Quintana













"E o meu cordel estradeiro
É cascavel poderosa
É chuva que cai maneira
Aguando a terra quente
Erguendo um véu de poeira
Deixando a tarde cheirosa

É planta que cobre o chão
Na primeira trovoada
A noite que desce fria
Depois da tarde molhada

É seca desesperada
Rasgando o bucho do chão

É inverno e é verão

É canção de lavadeira
Peixeira de Lampião
As luzes do vaga-lume
Alpendre de casarão
A cuia do velho cego
Terreiro de amarração
O ramo da rezadeira
O banzo de fim de feira

Vocês que estão no palácio
Venham ouvir meu pobre pinho
Não tem o cheiro do vinho
Das frutas frescas do Lácio
Mas tem a cor de Inácio
Da serra da Catingueira
Um cantador de primeira
Que nunca foi numa escola

Pois meu verso é feito a foice
Do cassaco cortar cana
Sendo de cima pra baixo
Tanto corta como espana
Sendo de baixo pra cima
voa do cabo e se dana."

Trecho de "O Cordel Estradeiro",
música do Cordel do Fogo Encantado.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Um Sorriso

Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo.E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.

A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos.Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
— Foi então que senti sorrir o meu desgosto...

Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

Manuel Bandeira

domingo, 20 de setembro de 2009

Sobre importâncias

Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou a atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era do estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importãncia das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.

Manoel de Barros

Se Fossemos Infinitos

Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.

Bertolt Brecht


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Longa trajetória

A formação de um cientista é uma longa caminhada e ela nunca tem um fim. O início pode ser ainda quando se é estudante de graduação, ao se fazer uma iniciação científica. Nesse caso, um professor (que seja cientista) propõe ao aluno um pequeno trabalho no qual ele começa a aprender os primeiros passos da pesquisa. Para continuar a formação, após concluir a graduação, normalmente cursa-se um mestrado, com duração de dois anos, e um doutorado, que dura em torno de quatro anos. Após isso, são feitos alguns estágios de pós-doutorado para aprimorar mais os conhecimentos.

No mestrado, além de fazer cursos mais avançados e especializados, se desenvolve uma pesquisa sob a orientação de um professor, que deverá ser apresentada na forma de dissertação para uma banca com no mínimo três professores. No doutorado, além de o cientista se especializar mais, fazendo outras disciplinas, a pesquisa deve também gerar publicações, produtos, patentes etc. É necessário escrever uma tese e apresentá-la para uma banca com pelo menos cinco professores (que devem ser doutores). A partir daí, recebe-se o título de doutor (este de verdade, não o que muitos bacharéis utilizam sem tê-lo). Essa é a trajetória para se tornar cientista. Apenas em raras exceções não se segue esse caminho.

De fato, ser cientista exige muito de quem opta por essa carreira, mas ela é, sem dúvida, uma das mais apaixonantes. Convém lembrar que o cientista é uma pessoa como outra qualquer, tem os mesmos problemas e dificuldades do cidadão comum. Tem que levar as crianças na escola, fazer compras no supermercado, lavar o carro etc.

No Brasil, em particular, o termo cientista é pouco usado para designar os que fazem ciência. É mais comum chamá-los de pesquisador, embora esse termo também se aplique às pessoas que realizam censos e pesquisas de opinião, como as eleitorais.

Para o nosso país, é fundamental existirem pessoas envolvidas na atividade científica, para que não fiquemos muito distantes dos países mais avançados, não somente em termos de tecnologia, mas também de desenvolvimento humano. É mais importante a riqueza que existe na cabeça das pessoas do que a que se encontra embaixo da terra, como petróleo, minerais etc.

A carreira de cientista em um país como o Brasil não tem muito prestígio, pois o retorno financeiro não é proporcional ao nível de especialização exigido para tal. Contudo, o prazer da descoberta e a satisfação de percorrer caminhos ainda não trilhados são os maiores retornos que essa carreira pode proporcionar. Ter a oportunidade de participar da maior aventura humana, que é a descoberta e a compreensão do mundo a nossa volta, é algo que não tem preço.


Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/153272

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

"Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim."

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Afastado da terra ele pensa na fera que o começa a devorar..."




A Terceira Lâmina

É aquela que fere
Que virá mais tranqüila
Com a fome do povo
Com pedaços da vida
Como a dura semente
Que se prende no fogo
De toda multidão
Acho bem mais
Do que pedras na mão...

Dos que vivem calados
Pendurados no tempo
Esquecendo os momentos
Na fundura do poço
Na garganta do fosso
Na voz de um cantador...

E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera
Que o começa a devorar...

Acho que os anos
Irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a idéia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador...

E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera
Que o começa a devorar...

Acho que os anos
Irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a idéia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador...

Heiá! Oh! Oh!
Heiá! Oooooooh!
Oh! Oh! Oh! Oh!

Zé Ramalho

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O Cacto

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatutária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito dos bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou
[a cidade de iluminção e energia:
- Era belo, áspero, intratável.

Manuel Bandeira
In:"Poesia reunida"

Quem sabe não seria essa uma das funções da poesia...

Trecho de Entrevista com Ferreira Gullar:

"Todo poema que escrevo é, no fundo, uma ampliação de minha própria maneira de me expressar, de modo que, ao iniciar qualquer poema, não sei bem onde vou terminar.

Agora, numa época como a nossa, cujas características são as de transformar tudo em mercadoria e cujo único valor que se reconhece é o da troca mercantil, o poeta, ao contrário do que se possa imaginar, tem um papel cada vez mais crucial. E não só o poeta, mas também o músico, o pintor, o artista, enfim. E isso para não falar daquele homem que se mantém fiel à sua natureza de ser humano, entende?

Certa vez, quando eu estava no exílio e nos reuníamos para um jantar com outros exilados brasileiros, havia um economista, casado com uma morena muito bonita, que atormentava todo mundo com aquele papo de economia, com aquelas teorias arrogantes que pretendem explicar o mundo. Um dia a morena foi embora, e bastou que isso acontecesse para que ele mudasse de conversa. O cara sentou ao meu lado e passou a falar só de poesia: poesia inglesa, poesia espanhola, poesia francesa. Enfim, era um profundo conhecedor de poesia. Mas só começou a falar desse assunto quando a morena foi embora e ele soube o que era o desamparo.

Quem sabe não seria essa uma das funções da poesia, ou seja, despertar-nos para o efêmero e a fugacidade da vida?"

In:"Poesia Sempre", 9. Mar/98

O espetáculo














Aqui do alto do cruzeiro
Onde o vento faz a curva pra voltar com mais coragem
Vejo o sol tocando a ponta do para-raio da cruz
Elimino a ofensa do atrito
Atravanco o portão da ventania
Faço a caixa do mar ficar vazia
Boto um teto no vão do infinito (01)



















Para dar o pão pra os filhos
Que chegam magros da guerra
O mensageiro do sonho
Nesse terreno que treme
Da magra mão estendida
Da paixão que grita e geme
Das curvas do firmamento
Da claridade da lua
Solidão do mundo novo
A batucada da rua
O espetáculo não pode parar!
Quando a dor se aproxima
Fazendo eu perder a calma
Passo uma esponja de rima
Nos ferimentos da alma (02)

















O espetáculo não pode parar!
Há certas coisas no mundo
Que eu olho e fico surpreso
Uma nuvem carregada
Se sustentar com o peso
E dentro de um bolo dágua
Sair um corisco aceso (03)


(01) Manoel Filó
(02) Jó Patriota
(03) Manoel Chudu

Uma hora vai voltar para você...

domingo, 13 de setembro de 2009

Açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos vinte e sete anos
plataram e colheream a cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.

Ferreira Gullar

Subversiva

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer dos seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça

E promete incêndiar o país.

Ferreira Gullar

sábado, 12 de setembro de 2009

Questione...

Menos a mim

Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.

Ferreira Gullar

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Zé Ramalho e Zeca Baleiro...que dupla é essa!

O Rei do Rock

http://www.youtube.com/watch?v=57vPnxfX0ok

Zé Ramalho

Composição: Zeca Baleiro

Eu nunca fui o rei do rock
Mas não vendi minha guitarra
Um cantador me deu o toque
Cante, não berre, agüente a barra

Aí então me fiz cantor
Cego aboiando a ventania
Raios, trovões de trovador
Espalhei na terra fria

Da Paraíba ao Mississipi
Levei meu som num velho opala
Eu já fui junkie, eu já fui hippie
Hoje é o mundo minha sala

Atravessei o riso e o choro
Dias e mares de marasmo
Com meu casaco de couro
Eu me sentia um Erasmo

Por onde andei, cantei baladas
Raps, repentes, tristes blues
Rasgando o ventre das estradas
Cegando o escuro tanta era a luz

Vaguei por ruas sem asfalto
Andei por becos sem saída
Lutei até o último assalto
No ringue louco dessa vida


Na tela grande do destino
Fui bandoleiro, fui caubói
Vaqueiro errante, beduíno
Soldado dado à dor que dói

Amei mulheres às dezenas
Ergui altares para elas
Plantei crisântemos, verbenas
Rezei novenas, vi novelas

Poeta torto como um anjo
Voei por astros e planetas
Desafinando eu e meu banjo
O triste coro dos caretas

Na tela do grande cinema
Fui justiceiro, menestrel
A minha vida é um poema
Que escrevi com sangue e fel

Eu nunca fui o rei do rock
Mas não vendi minha guitarra
Um cantador me deu o toque
Cante, não berre, agüente a barra.

"Fui educado nas letras desde a infância; e, uma vez que me persuadiam que por meio delas poderíamos adquirir conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, tinha um extremo desejo de aprendê-las. Mas tão logo terminei esse curso de estudos, ao fim do qual se costuma ser admitido entre os doutos, mudei completamente de opinião. Pois me achava acossado por tantas dúvidas e erros, que me parecia que meu único lucro, ao procurar instruir-me, fora ter descoberto cada vez mais a minha ignorância. E, no entanto, estava numa das mais célebres escolas da Europa, onde julgava haver eruditos, se é que existiam tais pessoas em algum lugar da terra. Lá aprendera tudo o que os outros aprendiam; e até, não me havendo contentado com as ciências que nos ensinavam, percorrera todos os livros que caíssem em minhas mãos e tratassem das consideradas mais curiosas e mais raras. Com isso, eu sabia os juízos que os outros faziam de mim; e não via de modo algum que me considerassem inferior aos meus colegas, embora já houvesse entre eles alguns destinados a ocupar o lugar dos nossos mestres . E, enfim, nosso século parecia-me tão florescente e fértil em bons espíritos quanto qualquer um dos anteriores. O que me fazia tomar a liberdade de julgar por mim todos os outros, e de pensar que não havia nenhuma doutrina no mundo que fosse tal como antes me haviam feito esperar."

[Discurso do Método, René Descartes]

quarta-feira, 9 de setembro de 2009



"A felicidade corre sem parar
Bela é uma cidade velha
Na velocidade a tarde leva o teu olhar
Longe descansar na estrela

E um corpo passa por mim
Água do rio na areia
Adormecendo assim
Esta pedra em mim

E meu leito clareia
Fosse paixão frenesi
Doce ilusão moça bela
A solidão mora aqui
E a cidade é sem fim
Qual a tua janela

Tudo igual
Tal e qual
Fosse paixão."

Daqui Pra Lá de Lá Pra Cá




Era um pacato cidadão sem documento
Não tinha nome profissão não tinha tempo
Mas certo dia deu-se um caso
E ele embarcou num disco
E foi levado pra bem longe
Do asterisco em que vivemos

Ele partiu e não voltou
E não voltou porque não quis
Quero dizer ficou por lá
Já que por lá se é mais feliz

E um espaçograma ele enviou
Pra quem quisesse compreender
Mas ninguém nunca decifrou
O que ele nos mandou dizer
Terra mar e ar atenção
O futuro é hoje e cabe na palma da mão

Para azar de quem não sabe e não crê
Que se pode sempre a sorte escolher
E enterrar qualquer estrela no chão
Viet vista visão viet vista visão

Terra mar e ar atenção
Fica a morte por medida
Fica a vida por prisão.

Fagner e Zeca Baleiro

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pergunta e resposta














Se é fato que
toda a massa do sistema
solar (somando a de Saturno e Marte
e Terra e Vênus e Urano e Mercúrio
e Plutão, mais
os satélites, mais
os asteróides, mais) equivale
apenas a 2% da massa
total do Sol e
que o Sol não é mais
que um mínimo ponto
de luz na estonteante tessitura de
gás e poeira da Via
Láctea e que a Via
Láctea é apenas uma
Entre bilhões de galáxias
que à velocidade de 300 mil km por segundo
voam e explodem
na noite
então pergunto:
o que faz aí
meu poema com seu
inaudível ruído?

E respondo:
Inaudível
Para quem esteja
Na galáxia NGC 5128
Ou na constelação
de Virgo ou mesmo
em Ganimedes
onde felizmente não estás,
Cláudia Ahimsa,
poeta e musa do planeta Terra.

Ferreira Gullar

Homem Comum
















Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.
Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores
passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz
caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em
você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.
Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.

Ferreira Gullar

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Ventania




"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara." (Eduardo Galeano)

Cavaleiro marginal...

"Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quer acreditar
Eu apenas era

Cavaleiro marginal..."


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Trabalho...

Metade

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra metade…
também

Ferreira Gullar

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Os ceguinhos
















Um dia, um ceguinho de nascença...
- pois bem, para ser mais explícito e para conservar
por mais algum tempo a sua passageira imagem
neste mundo
um dia
numa daquelas nossas conversas de bar,
o sanfonista Artur Eisner me confessou:
"Bem sei que, para vocês, eu, teoricamente, estou nas
[trevas.
Teoricamente?! - pensei. num comovido espanto.
Talvez no mesmo silencioso espanto com que os anjos
[escutam
as palavras que digo
dentro da minha treva iluminada.

[Mario Quintana; Baú de Espantos]

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Pequeno poema de após chuva



















Frescor agradecido de capim molhado
Como alguém que chorou
E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada
[alegria
Por ter a vida
continuado...

[Mario Quintana; Baú de Espantos]