segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O papel do homem nos grandes acontecimentos históricos, segundo Tolstói.




Segundo Tolstói, "o homem que desempenha um papel nos acontecimentos históricos jamais lhes compreende o significado". Por esse pensamento e por outros que tive a oportunidade de ler, pude perceber que ele defende a idéia de que os grandes acontecimentos históricos pouco têm a ver, ou não são resultado direto da ação de homens célebres, mas sim originários de uma série de inúmeras variáveis que fogem a qualquer análise global.

No trecho de Guerra e Paz, que transcrevo a seguir, Tostói fala sobre o comportamento de Napoleão e do general-em-chefe dos exércitos russos, Kutuzov, durante o avanço das tropas francesas sobre o território russo em agosto de 1812. Segundo Tolstói, ao contrário do que os historiadores pregaram, a marcha dos acontecimentos se deu "independente" de qualquer posição tomada por este ou por aquele comandante.

"No dia 24 deu-se a batalha de Chevardino; a 25, não se disparou um único tiro, quer de um lado quer do outro, e a 26 travou-se a batalha de Borodino.
Por que se travaram estas duas batalhas? Como se deram? Por que se deu, particularmente, a batalha de Borodino? Tal batalha não tinha o menor sentido nem para os franceses nem para os russos. O seu resultado imediato foi, e tinha de ser, para os russos mais um passo para a perda de Moscou, a coisa que eles mais receavam, para os franceses passo idêntico para a perda total do seu exército, o que eles também temiam acima de tudo. Este resultado era evidente; mesmo então, e apesar disso, Napoleão ofereceu batalha e Kutuzov aceitou-a.

Se os grandes capitães se deixassem guiar por considerações razoáveis, parecia evidente para Napoleão que, depois de se afastar mais de duas mil verstas das suas bases, travar uma batalha com a possibilidade a todo ponto inverossímil de perder a quarta parte do seu exército era como que caminhar para uma derrota certa. Devia ser igualmente certo para Kutuzov que aceitar o combate, arriscando também , por seu lado, a quarta parte de suas forças, era como que jogar a perda de Moscou. (...)

Antes de Borodino as forças russas , em relação às francesas, encontravam-se na proporção de cinco para seis e, depois da batalha, de um para dois, o que quer dizer que antes da batalha os russos eram cem mil contra cento e vinte mil, e depois dela cinquenta mil contra cem mil. E no entanto o experimentado e inteligente Kutuzov aceitou o combate. E Napoleão, esse gênio militar, como então se dizia, aceitou a luta, que lhe custou um quarto do seu exército e ainda mais lhe estendeu as linhas. Ainda que se diga que, tomando Moscou, pensava dar a campanha por finda, como acontecera depois da tomada de Viena, não faltam provas que demonstrem o contrário. Os próprios historiadores de Napoleão referem que depois de Smolensk ele queria deter-se, ele próprio se dava conta do perigo da extensão das linhas, sabendo que a ocupação de Moscou não seria o fim da campanha, pois desde Smolensk que verificava o estado em que encontravam as cidades que tomava e que nenhuma resposta obtinha às suas reiteradas tentativas de entabular negociações.

Oferecendo e aceitando a batalha, tanto Kutuzov como Napoleão agiram contrariamente ao livre-arbítrio e de forma insensata. No entanto, os historiadores, consumados os fatos, extraíram consequências complicadas e enganadoras sobre a visão do gênio dos generais, quando a verdade e que estes, no meio dos instrumentos inconscientes dos acontecimentos dessa época, mostraram ser os mais servis e os mais cegos."

Guerra e Paz, L&PM, Vol.3, pág. 926-927

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