domingo, 30 de agosto de 2009

Epístola aos novos bárbaros

Jamais compreendereis a terrível simplicidade das
[minhas palavras
porque elas não são palavras: são rios, pássaros,
[naves...
no rumo de vossas almas bárbaras.
Sim, vós tendes as vossas almas supersticiosamente
[pintadas.
e não apenas a cara e o corpo como os verdadeiros
[selvagens.
Sabeis somente dar ouvido a palavras que não
[compreendeis,
e todos os vossos deuses são nascidos do medo.
E eu na verdade não vos trago a mensagem de
[nenhum deus.
Nem a minha...
Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de
[cada um de vós
a limpar-vos de vossas tatuagens.
E o frêmito que sentireis, então, nas almas transfiguradas
não será do revôo dos anjos... Mas apenas
o beijo amoroso e invisível do vento
sobre a pele nua.

[Mario Quintana; Baú de Espantos]
"You did not bear the shame,
you resisted.
Sacrificing your life
for freedom, justice and honor."


- From The German Resistance Memorial, Berlin.


"Você não carregou a vergonha,
você resistiu.
Sacrificando a sua vida
por liberdade, justiça e honra."

- Do Memorial da Resistência Alemã, Berlin.


Memorial dedicado aos alemães que se opuseram
ao Nazismo e às atrocidades cometidas durante o
Terceiro Reich.

sábado, 29 de agosto de 2009

"Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo
quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas
em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta!
Caminhei tanto e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota.
Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois finda a projeção,
instruir-me vendo as caras. Sou uma besta. Quando a realidade
me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba."

Graciliano Ramos, Angústia.


- Acabe com essa literatura, Moisés, exclamei impaciente. Não serve.
Moisés dobrou a folha, sorrindo:
- Que história é essa?
- É o que lhe digo. Não serve. A linguagem escrita é uma safadeza que vocês inventaram para enganar a humanidade, em negócios ou com mentiras.
- Que diabo tem você? perguntou Moisés.
- Não é nada não. É que não vale a pena, acredite que não vale a pena. Uma pessoa passa a vida remoendo essas bobagens. Tempo perdido. Uma criança mete a gente num chinelo, Moisés.

Angústia, Graciliano Ramos


E andavam para o Sul, metidos naquele sonho. Uma cidade
grande, cheia de pessoas fortes Os meninos em escolas,
aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles dois velhinhos,
acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como
Baleia. Que iriam fazer? Retardaram-se temerosos. Chegariam
a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela.
E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria
para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória
e os dois meninos.

Graciliano Ramos
(Vidas secas)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

"Corra, não pare, não pense demais
repare essas velas no cais
que a vida é cigana..."

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Farol dos mundos

http://www.youtube.com/watch?v=l5rWjhOeAkQ&feature=channel_page

Compositor(es): Zé Ramalho E Robertinho De Recife


Por detrás das montanhas
Quando vens cada ciclo
Me estremeço de veias
Fico mudo de pleno
Ano-luz amarela
Que derrete os minerais
Que amolece os animais
Curandeira das trevas
Pastorinha do cais

Que recebo em teus raios
No alimento das sombras
Que chegaram relâmpagos
Entre olhos de pedras
Cavalgaram teu dorso
Nos umbigos da terra
Nos rochedos que rompem
Ante um raio mais forte
Os sons das guitarras

Faíscas da vida
Um solo de clarões
Que nos iluminou
No ventre dos abismos
No ventre dos abismos....

Se em terra de cego quem tem um olho é rei, imagine quem tem os dois...

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As aparências enganam

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O soslaio do operário estúpido ao engenheiro doido

O soslaio do operário estúpido ao engenheiro doido -
O engenheiro doido fora da engenharia...
O sorriso trocado que sinto nas costas quando passo
[entre os normais-
(Quando me olham cara a cara e não os sinto sorrir).


Álvaro de Campos [Fernando Pessoa], 22/01/1929.


Álvaro de Campos é um dos heterônimos predominantes de
Fernando Pessoa. Era, segundo este, formado em Engenharia
Naval na Escócia, profissão que nunca chegou a exercer.

terça-feira, 25 de agosto de 2009



"Oh eu não sei se eram os antigos que diziam
Em seus papiros papillon já me dizia
Que nas torturas toda carne se trai
E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente
Displicentemente o nervo se contrai
Oh oh oh oh com precisão
Nos aviões que vomitavam pára-quedas
Nas casamatas, casas vivas, caso morras
E nos delírios, meus grilos temer
O casamento, rompimento, sacramento, documento
Como um passatempo quero mais te ver
Oh oh oh oh com aflição
Meu treponema não é pálido, nem viscoso
Os meus gametas se agrupam no meu som
E as querubinas meninas rever
Um compromisso submisso, rebuliço no cortiço
Chame o padre ciço para me benzer
Oh oh oh oh com devoção."

Vila do Sossego, Zé Ramalho


A flauta, a sanfona e o violão fazem
uma união genial nessa versão da música.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dentro da noite veloz

Ferreira Gullar

I

Na quebrada do Yuro
eram 13,30 horas
(em São Paulo
era mais tarde; em Paris anoitecera;
na Ásia o sono era seda)
Na quebrada do rio Yuro
a claridade da hora
mostrava seu fundo escuro:
as águas limpas batiam
sem passado e sem futuro.
Estalo de mato, pio
de ave, brisa nas folhas
era silêncio o barulho
a paisagem
(que se move)
está imóvel, se move
dentro de si
(igual que uma máquina de lavar
lavando sob o céu boliviano, a paisagem
com suas polias e correntes de ar)
Na quebrada do Yuro
não era hora nenhuma
só pedras e águas

II

Não era hora nenhuma
até que um tiro
explode em pássaros
e animais até que passos
vozes na água rosto nas folhas
peito ofegando a clorofila
penetra o sangue humano
e a história se move a paisagem
como um trem começa a andar
Na quebrada do Yuro eram 13,30 horas

III

Ernesto Che Guevara
teu fim está perto
não basta estar certo
para vencer a batalha
Ernesto Che Guevara
Entrega-te à prisão
não basta ter razão
pra não morrer de bala
Ernesto Che Guevara
não estejas iludido
a bala entra em teu corpo
como em qualquer bandido
Ernesto Che Guevara
por que lutas ainda?
a batalha está finda
antes que o dia acabe
Ernesto Che Guevara
é chegada a tua hora
e o povo ignora
se por ele lutavas

IV

Correm as águas do Yuro, o tiroteio agora
é mais intenso, o inimigo avança
e fecha o cerco.
Os guerrilheiros
em pequenos grupos divididos
agüentam a luta, protegem a retirada
dos companheiros feridos.
No alto,
grandes massas de nuvens se deslocam lentamente
sobrevoando países
em direção ao Pacífico, de cabeleira azul.
Uma greve em Santiago. Chove
na Jamaica. Em Buenos Aires há sol
nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe.
Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima
de Montevidéu. À beira da estrada
muge um boi da Swift. A Bolsa
no Rio fecha em alta ou baixa.
Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Ñato
castigam o avanço dos rangers .
Urbano tomba, Eustáquio
Che Guevara sustenta
o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe
o joelho, no espanto
os companheiros voltam
para apanhá-lo. É tarde. Fogem.
A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos.

V

Não está morto, só ferido
Num helicóptero iangue
é levado para Higuera
onde a morte o espera
Não morrerá das feridas
ganhas no combate
mas de mão assassina
que o abate
Não morrerá das feridas
ganhas a céu aberto
mas de um golpe escondido
ao nascer do dia
Assim o levam pra morte
(sujo de terra e de sangue)
subjugado no bojo
de um helicóptero ianque
É seu último vôo
sobre a América Latina
sob o fulgir das estrelas
que nada sabem dos homens
que nada sabem do sonho,
da esperança, da alegria,
da luta surda do homem
pela flor da cada dia
É seu último vôo
sobre a choupana de homens
que não sabem o que se passa
naquela noite de outubro
quem passa sobre seu teto
dentro daquele barulho
quem é levado pra morte
naquela noite noturna

VI

A noite é mais veloz nos trópicos
(com seus na vertigem das folhas na explosão
monturos) das águas sujas
surdas
nos pantanais
é mais veloz sob a pele da treva, na
conspiração de azuis
e vermelhos pulsando
como vaginas frutas bocas
vegetais (confundidos com sonhos)
ou um ramo florido feito um relâmpago
parado sobre uma cisterna d´água
no escuro
É mais funda
a noite no sono
do homem na sua carne
de coca e de fome
e dentro do pote uma caneca
de lata velha de ervilha
da Armour Company
A noite é mais veloz nos trópicos
com seus monturos
e cassinos de jogos
entre as pernas das putas
o assalto a mão armada
aberta em sangue a vida.
É mais veloz (e mais demorada)
nos cárceres
a noite latino-americana
entre interrogatórios
e torturas (lá fora as violetas)
e mais violenta (a noite)
na cona da ditadura
Sob a pele da treva, os frutos
crescem
conspira o açúcar
(de boca para baixo) debaixo
das pedras, debaixo
da palavra escrita no muro
ABAIX
e inacabada Ó Tlalhuicole
as vozes soterradas da platina
Das plumas que ondularam já não resta
mais que a lembrança
no vento
Mas é o dia (com seus monturos)
pulsando dentro do chão
como um pulso
apesar da South American Gold and Platinum
é a língua do dia
no azinhavre
Golpeábamos en tanto los muros de adobe
y era nuestra herencia una red de agujeros
é a língua do homem
sob a noite
no leprosário de San Pablo
nas ruínas de Tiahuanaco
nas galerias de chumbo e silicose
da Cerro de Pasço Corporation
Hemos comido grama salitrosa
piedras de adobe lagartijas ratones
tierra en polvo y gusanos
até que
(de dentro dos monturos) irrumpa
com seu bastão turquesa

VII

Súbito vimos ao mundo
E nos chamamos Ernesto
Súbito vimos ao mundo
e estamos
na América Latina
Mas a vida onde está
nos perguntamos
Nas tavernas?
nas eternas tardes tardas?
nas favelas
onde a história fede a merda?
no cinema?
na fêmea caverna de sonhos
e de urina?
ou na ingrata
faina do poema?
(a vida
que se esvai
no estuário do Prata)
Serei cantor
serei poeta?
Responde o cobre (da Anaconda Copper):
Serás assaltante
E proxeneta
Policial jagunço alcagueta
Serei pederasta e homicida?
serei o viciado?
Responde o ferro (da Bethlehem Steel):
Serás ministro de Estado
e suicida
Serei dentista
talvez quem sabe oftalmologista?
Otorrinolaringologista?
Responde a bauxita (da Kaiser Aluminium):
serás médico aborteiro
que dá mais dinheiro
Serei um merda
quero ser um merda
Quero de fato viver.
Mas onde está essa imunda
vida – mesmo que imunda?
No hospício?
num santo
ofício?
no orifício da bunda?
Devo mudar o mundo,
a República? A vida
terei de plantá-la
como um estandarte
em praça pública?

VIII

A vida muda como a cor dos frutos
lentamente
e para sempre
A vida muda como a flor em fruto
velozmente
A vida muda como a água em folhas
o sonho em luz elétrica
a rosa desembrulha do carbono
o pássaro da boca
mas
quando for tempo
E é tempo todo o tempo
mas
não basta um século para fazer a pétala
que um só minuto faz
ou não
mas
a vida muda
a vida muda o morto em multidão".

Somos a Humanidade

"Cresci com um coração que é ateu. O que isso pode significar para a humanidade ? Nada. Algumas pessoas acreditam no divino.
Outras se apegam a imagens. Eu acredito na minha energia. Podes chamá-la como quiser.
Cresci aprendendo, em silêncio, os segredos das palavras brotadas, clandestinamente, das línguas cansadas.

Cresci abraçado com a minha determinação de ter um mundo novo. Sempre encarei os desafios. Mesmo que para isso tivesse que entrar no olho do furacão...

Podes me chamar, sempre que precisares... O que isso pode significar para a humanidade ? Tudo. Porque juntos a formamos."

(retirado de um blog)

Aqui morava um rei

"Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado."

Ariano Suassuna


Poema escrito por Ariano Suassuna em homenagem ao seu pai,
assassinado em 1930 quando o autor tinha apenas três anos de
idade.

domingo, 23 de agosto de 2009

João Boa Morte , Cabra Marcado para Morrer

Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.

Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.

João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."

Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".

Ferreira Gullar
"A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas." (Francis Bacon)

Velha história

Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho. Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o peixinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis.
Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés. Como era tocante vê-los no "17"! - o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial...
Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:

- Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta paro o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!...

Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n'água. E a água fez um redemoinho, que depois foi serenando, serenando...até que o peixinho morreu afogado...

Mario Quintana

Acho que a genialidade desse texto ficou no final inesperado. Por que o peixinho morreu afogado? É a pergunta que me vem sempre que o releio.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O engenheiro


A Antônio B. Baltar


A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.

(Em certas tardes nós subíamos
ao edifício. A cidade diária,
como um jornal que todos liam,
ganhava um pulmão de cimento e vidro).

A água, o vento, a claridade,
de um lado o rio, no alto as nuvens,
situavam na natureza o edifício
crescendo de suas forças simples.

João Cabral de Melo Neto
In:"O engenheiro"

Flor de açucena




Quando acariciei o teu dorso,
campo de trigo dourado,
minha mão ficou pequena
como uma flor de açucena
que delicada desmaia
sob o peso do orvalho.
Mas meu coração cresceu
e cantou como um menino
deslumbrado pelo brilho
estrelado dos teus olhos.

92, Porantim

Thiago de Mello

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Lápis

É por demais de grande a natureza de Deus.
Eu queria fazer para mim uma naturezinha
particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu
lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do
meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas
para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para
compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais eu queria que no
fundo corresse um rio.
No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo
dia jogar cangapé nas águas correntes.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha
particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.

Manoel de Barros

O VENTO



Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física do vento: uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz.
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino montado no cavalo do vento - que lera em Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.

Manoel de Barros
em - Ensaios Fotográficos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"As divergências de opinião não devem significar hostilidades." (Gandhi)
"Verdadeiro democrata é aquele que defende sua liberdade, a de sua pátria e da humanidade, com meios não-violentos." (Gandhi)
"O silêncio é um grande auxílio para quem, como eu,
está em busca da verdade." (Gandhi)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Impossível

Sozinho não posso
carregar um piano
menos ainda um cofre-forte.
Como poderia então
retomar de ti meu coração
carregá-lo de volta?
Os banqueiros dizem com razão:
"Quando nos faltam bolsos,
nós que somos muitíssimos ricos,
guardamos o dinheiro no banco".
Em ti
depositei o meu amor,
tesouro encerrado em caixa de ferro,
ando por aí
como um Creso contente.
É natural, pois,
quando me dá vontade,
que retire um sorriso,
metade de um sorriso
ou menos até
indo com as donas
eu gaste depois da meia noite
uns quantos rublos de lirismo à toa.

Vladímir Maiakóvski

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

"Ah! você que nasceu com o leito pro rio
Que desafio querer-te acompanhar!"

"Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão."

O papel do homem nos grandes acontecimentos históricos, segundo Tolstói.




Segundo Tolstói, "o homem que desempenha um papel nos acontecimentos históricos jamais lhes compreende o significado". Por esse pensamento e por outros que tive a oportunidade de ler, pude perceber que ele defende a idéia de que os grandes acontecimentos históricos pouco têm a ver, ou não são resultado direto da ação de homens célebres, mas sim originários de uma série de inúmeras variáveis que fogem a qualquer análise global.

No trecho de Guerra e Paz, que transcrevo a seguir, Tostói fala sobre o comportamento de Napoleão e do general-em-chefe dos exércitos russos, Kutuzov, durante o avanço das tropas francesas sobre o território russo em agosto de 1812. Segundo Tolstói, ao contrário do que os historiadores pregaram, a marcha dos acontecimentos se deu "independente" de qualquer posição tomada por este ou por aquele comandante.

"No dia 24 deu-se a batalha de Chevardino; a 25, não se disparou um único tiro, quer de um lado quer do outro, e a 26 travou-se a batalha de Borodino.
Por que se travaram estas duas batalhas? Como se deram? Por que se deu, particularmente, a batalha de Borodino? Tal batalha não tinha o menor sentido nem para os franceses nem para os russos. O seu resultado imediato foi, e tinha de ser, para os russos mais um passo para a perda de Moscou, a coisa que eles mais receavam, para os franceses passo idêntico para a perda total do seu exército, o que eles também temiam acima de tudo. Este resultado era evidente; mesmo então, e apesar disso, Napoleão ofereceu batalha e Kutuzov aceitou-a.

Se os grandes capitães se deixassem guiar por considerações razoáveis, parecia evidente para Napoleão que, depois de se afastar mais de duas mil verstas das suas bases, travar uma batalha com a possibilidade a todo ponto inverossímil de perder a quarta parte do seu exército era como que caminhar para uma derrota certa. Devia ser igualmente certo para Kutuzov que aceitar o combate, arriscando também , por seu lado, a quarta parte de suas forças, era como que jogar a perda de Moscou. (...)

Antes de Borodino as forças russas , em relação às francesas, encontravam-se na proporção de cinco para seis e, depois da batalha, de um para dois, o que quer dizer que antes da batalha os russos eram cem mil contra cento e vinte mil, e depois dela cinquenta mil contra cem mil. E no entanto o experimentado e inteligente Kutuzov aceitou o combate. E Napoleão, esse gênio militar, como então se dizia, aceitou a luta, que lhe custou um quarto do seu exército e ainda mais lhe estendeu as linhas. Ainda que se diga que, tomando Moscou, pensava dar a campanha por finda, como acontecera depois da tomada de Viena, não faltam provas que demonstrem o contrário. Os próprios historiadores de Napoleão referem que depois de Smolensk ele queria deter-se, ele próprio se dava conta do perigo da extensão das linhas, sabendo que a ocupação de Moscou não seria o fim da campanha, pois desde Smolensk que verificava o estado em que encontravam as cidades que tomava e que nenhuma resposta obtinha às suas reiteradas tentativas de entabular negociações.

Oferecendo e aceitando a batalha, tanto Kutuzov como Napoleão agiram contrariamente ao livre-arbítrio e de forma insensata. No entanto, os historiadores, consumados os fatos, extraíram consequências complicadas e enganadoras sobre a visão do gênio dos generais, quando a verdade e que estes, no meio dos instrumentos inconscientes dos acontecimentos dessa época, mostraram ser os mais servis e os mais cegos."

Guerra e Paz, L&PM, Vol.3, pág. 926-927

domingo, 16 de agosto de 2009

Os Estatutos do Homem

Logo após a implantação da ditadura militar no Brasil em 1964, o poeta Thiago de Mello escreveu o seguinte poema em resposta ao Ato Institucional N°1. Este poema, juntamente com o conjunto de sua obra, na época lhe valeram a prisão ao regressar à pátria.

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964

A sociedade da informação

É incrível imaginar o quanto evoluiu a tecnologia nos últimos 60 anos e como o impacto sobre a vida das pessoas foi grande, pelo menos na vida daquelas que não estão à margem das sociedades. Aspectos bons e ruins sempre acompanham mudanças nesses moldes. Por exemplo, o grande avanço das comunicações "quebrou" as barreiras impostas pela distância, no que se refere às relações comerciais, culturais e humanas. Hoje é tanta informação que nos é atirada, que nós até ficamos perdidos. Saber lidar com esse novo ambiente é um desafio. Há os que defendam que a tecnologia sempre vem para melhorar a vida das pessoas, no entanto não se vê um retorno claro e imediato desse fato para a melhoria da humanidade como um todo. Na verdade os grandes problemas continuam os mesmos, até mais graves.

Eu sou estudante de Engenharia Elétrica e , desse modo, minha vida profissional estará irremediavelmente ligada com a tecnologia. Entretanto, eu me questiono. Onde será que esse caminho vai dar? Quando é que o conhecimento que a ciência nos lega vai ser usado, efetivamente, para a nossa evolução como Humanidade? Sou meio pessimista às vezes, mas não perdi a esperança de um dia acordar com um mundo melhor. Bom, mas o Saramago também sabe expressar essas idéias, muito melhor do que eu, é claro...hehe


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