segunda-feira, 23 de março de 2009

Guerra e Paz


Ultimamente não tenho lido muito, parte pelas minhas ocupações na graduação em Engenharia Elétrica e parte pela preguiça mesmo. No entanto, sempre procuro ler livros que acrescentem, de alguma forma, ideias e conceitos que possibilitem uma melhor pespectiva do mundo e da vida em geral. A obra que venho lendo nesses últimos tempos é Guerra e Paz, do escritor russo Leon Tostói. Até agora li a metade de uma versão publicada em 4 volumes. Guerra e Paz é um romance do tipo que mais me apraz, um romance histórico. Como tal, toda a obra mescla ficção e acontecimentos históricos verídicos, sempre proporcionando uma visão diferenciada de determinados aspectos da sociedade da época junto com reflexões de natureza intimista dos personagens. A trama se passa, basicamente, entre os anos de 1805 e 1812, período em que o império francês, comandado por Napoleão, investe em algumas campanhas imperialistas sobre a Rússia. Algumas passagens da obra reproduzem as batalhas entre os exércitos francês e russo com muita riqueza de detalhes, sem deixar a ótica humanista de lado. Em suma, Guerra e Paz é muito bom.

Transcreverei aqui uma passagem que trata de reflexões de um dos personagens principais, Pedro Bezukov. Pedro é um rapaz de ideias um pouco avançadas para o seu tempo. Por ser o seu pai uma das figuras mais ricas e influentes da sociedade russa, com o qual não se dá muito bem, Pedro convive no seio da mais alta aristocracia, embora seja discriminado por esta e pela qual, tão pouco, nutre simpatia. Após a morte do pai, Pedro se vê, de repente, como um dos mais ricos homens da Rússia, passando imediatamente a ser adorado por todos. Tamanha é tal fortuna, que ele passa por um período de perplexidade, durante o qual é tragado aos braços da mesma sociedade que o repelia. Nesse espaço de tempo se acomoda a nova vida, aderindo, inclusive, a um casamento de interesses com Helena Vassilievna. No entanto, pouco a pouco, suas reflexões sobre a convivência com a esposa e a vida que passara a levar começam a incomodá-lo. Não demora muito e, em decorrência de um episódio passional, separa-se de Helena. Imerso num período de profunda desilusão e isolamento sucede-se a ele, então, um encontro casual com um membro da maçonaria. Depois de um diálogo, para Pedro revelador, este começa a crer na identidade do seu pensar com as ideologias maçons. Desde então, tenta dedicar a vida e a fortuna ao auxílio do próximo e na purificação interior. Reata seu casamento, um pouco a contragosto, e dá início as suas tarefas em favor da redenção da humanidade. Mas, apesar de todos os esforços, Pedro cada vez mais se desilude com a sociedade que o cerca.

Segue abaixo um trecho, muito interessante no meu ponto de vista, de pensamentos desse personagem:

"(...) 'Helena Vassilievna, que nunca amou nada além do seu belo corpo e é uma das mulheres mais estúpidas na face da terra', repetia Pedro com seus botões, 'aos olhos do mundo é como o supra-sumo da inteligência, e a sociedade se prosterna diante dela. Napoleão Bonaparte, enquanto foi um grande homem, todos o desprezaram, e agora, que não passa de um despresível comediante, até o imperador Francisco lhe oferece a filha por concubina. Os espanhóis rendem graças a Deus, por intermédio do clero católico, por lhes haver concedido derrotarem os franceses no dia 14 de junho, e os franceses fazem outro tanto, por intermédio do mesmo clero, por no mesmo dia 14 de junho terem vencido os espanhóis (*). Os meus irmãos pedreiros-livres (**) juram, pelo sangue nas suas veias, estarem prontos a tudo sacrificar por amor ao próximo, e não se dignam a dar um rublo sequer no peditório para os pobres. E intrigam, tomando o partido da Astréia contra os Buscadores do Maná, prestando-se a todas as baixezas para conseguirem o verdadeiro 'tapete' escocês e uma ata que ninguém entende, nem mesmo aquele que a redigiu, nada significando, nem tendo qualquer préstimo. Todos nós professamos a lei cristã, que manda perdoar as injúrias e amar o próximo, e em nome desta lei erigimos em Moscou quarenta vezes quarenta igrejas, embora ainda ontem açoitássemos de morte um desgraçado desertor a quem o ministro desta mesma lei de amor e perdão, o sacerdote, deu a cruz a beijar antes do suplício'. Assim meditava Pedro, esta geral hipocrisia, aceita por todos, apesar do hábito que dela tinha, todos os dias o revoltava como se fosse um caso novo. (...)"

(*) Alusão ao ataque e cerco do Convento de Santa Cruz, pelo Marechal Ney, em junho de 1810.
(**) Maçons.